Antes de começar, se isto te ofende, óptimo. É sinal de que tocou em alguma coisa viva. E também é sinal que estás vivo(a) e que o cérebro conseguiu raciocinar 🙂
Talvez o amor seja uma das maiores ilusões. Quase ninguém quer amar de verdade.
O que as pessoas querem é não estar sozinhas.
E confundem isso com amor. Apenas amam aquela sensação de encaixe, de pertença.
A mente parece formatada para agradar e arranjar par. Como um modo de sobrevivência ancestral. Como se percorrer este caminho sozinho fosse um fracasso.
Fracasso é outra coisa.
Fracasso é dizer que se ama alguém e não conhecer metade da pessoa que se tem ao lado. Fracasso é amar apenas a luz que idealizámos e rejeitar as sombras. Fracasso é chamar amor a uma projecção confortável e falsa que foi criada sobre uma pessoa com quem queremos viver o “amor verdadeiro”.
É incrível como conseguimos chamar amor a um acordo profundamente cobarde e automático: eu mostro o que é mais bonito em mim, tu mostras o que é mais suportável em ti, e fingimos que isso é o todo. Fingimos que isso é amar.
Lamento, mas não é.
Enquanto a imagem perfeita que foi criada se mantém, tudo funciona às mil maravilhas. O casal perfeito. As promessas, os planos, as declarações de “amor eterno”.
Depende de uma condição que ninguém coloca a preto e branco: não podes mudar a pessoa que eu preciso que sejas, e não me obrigues a ver o que eu não quero ver.
O problema não é de facto as pessoas mudarem.
Porque isso acontece naturalmente ao longo da nossa vida.
Todos mudados. Sempre. Ponto final.
O problema é nunca termos sido verdadeiramente vistos.
Quando alguém diz “já não te reconheço”, quase nunca é devido a uma mudança real da outra pessoa. Mas sim do colapso das fantasias criadas, da imagem ideal, da morte do sonho que foi alimentado durante anos. E isso dói mais do que qualquer verdade nua e crua.
Não fomos ensinados a amar. Fomos ensinados a idealizar.
A pessoa certa. Sempre paciente. Presente. Amorosa. Segura.
Não sobrevive.
E eu sei porque
o meu corpo
sempre soube
quando eu estava a ficar por medo
e não por amor.
O que sobrevive é outra coisa. Muito mais rara. Muito mais exigente.
Amar de verdade exige coragem. Não coragem para ficar, mas coragem para ver. Ver o egoísmo. As feridas mal resolvidas. A raiva. A ansiedade. As incoerências. As sombras… e talvez o mais difícil de tudo: ver isso sem a ilusão de que temos de salvar, corrigir ou moldar o outro.
O verdadeiro amor aceita, simplesmente.
Não quer mudar ninguém.
Não quer uma pessoa feita à medida.
Quer um ser humano real.
E só quando o outro deixa de ser a “pessoa ideal” é que se torna livre.
E só aí o amor verdadeiro pode existir.
Porque nesse ponto já não há engano. Não há promessas fantasiosas. Há apenas uma pergunta crua e honesta: vendo o outro como ele é, quero continuar a estar aqui?
Se a resposta for sim, isso não é paixão. Não é apego. Não é medo de perder. É uma escolha consciente.
E muitas vezes essa escolha não é bonita como nos filmes. É pesada. É responsável. É adulta. Mas é verdadeira.
Talvez por isso poucas relações cheguem a esse lugar.
A verdade obriga a decidir. E decidir implica perder. A maioria não quer perder nada, nem sequer a ilusão. A maioria não quer amar, quer validação. Quer alguém perfeito do outro lado da cama para não ter de olhar para a própria solidão.
Mas falhamos precisamente quando escolhemos alguém que não queremos ver por inteiro.
No fundo, amar não é dizer “preciso de ti”.
É dizer “não preciso de ti. Mas escolho ter-te ao meu lado. Escolho ficar apesar de tudo”.
Sem garantias, sem promessas de amor eterno, sem falsas máscaras.
Tudo o resto são histórias bem contadas para evitar a solidão, a liberdade e a responsabilidade de amar alguém real.
Porque amar de verdade exige muito mais do que emoção, mais do que desejo. Exige auto-conhecimento, auto-estima, maturidade emocional e coragem para escolher alguém depois de conhecer a sua luz e a sua sombra.
Se depois de ler isto sentiste raiva, negação ou vontade de discordar, está tudo certo.
O texto não foi escrito para ser aceite.
Foi escrito para deixar uma pergunta impossível de ignorar:
“Alguma vez amaste alguém
ou apenas precisaste de alguém para não estares sozinho
e chamaste a isso amor?”









