Há coisas que passam de mãe para filho sem nunca terem sido ditas. Não. Não são os conselhos, nem as histórias, nem as memórias. São as sombras, as heranças invisíveis que recebemos. São silêncios que se arrastam por décadas de geração em geração.
Sempre soube que a minha mãe tinha uma sensibilidade especial. Uma vibração diferente. Uma capacidade de sentir coisas que não são propriamente visíveis, palpáveis. De pressentir antes de acontecer, de captar emoções que os outros tentam esconder. Durante muitos anos pensei que estas capacidades nos uniam. Pensei que, por partilharmos as mesmas capacidades, iríamos conseguir compreender-nos de um modo diferente, especial, quase espiritual, energético, vibracional.
Talvez por isso me tenha custado tanto perceber que, apesar de sentir o mundo, ela não conseguiu sentir-me a mim. Talvez eu seja demasiado. Talvez aquilo que eu lhe transmito é demasiado violento para ela lidar.
A minha mãe sempre falou da solidão de ter crescido sem ter tido com quem partilhar estas coisas. Sem poder falar abertamente sobre o que sentia e que carregava consigo. De procurar algo que nunca encontrou. Ela dizia que gostava de ter tido alguém com quem pudesse abrir o coração, alguém que a entendesse, alguém que a ouvisse sem a julgar.
E eu sempre ouvi isso, pensando que se um dia eu sentisse o mundo como ela, ela seria a primeira pessoa a compreender-me e a acolher-me nos seus braços… porque afinal ela saberia pelo que eu estaria a passar. A primeira a compreender-me. A primeira a ajudar-me a caminhar, estando ao meu lado.
Mas a vida às vezes não é como nós imaginamos. A vida tem muitas fórmulas diferentes.
Hoje consigo perceber que não basta ter sensibilidade ou “capacidades especiais” que não são trabalhadas. Isso torna-se em medos. Em traumas. Em confusões. Uma pessoa que sente demais e não sabe o que fazer com isso torna-se ausente, fria, instável e até distante de quem ama. O amor está lá, só não o consegue transmitir. A minha mãe nunca deixou de ser sensível. Apenas nunca aprendeu a organizar o que sentia, a curar os medos, os traumas… e nos últimos meses isso criou um abismo entre nós. Sinceramente, não sei se algum dia essa distância vai se encurtar. Mas já começo a preparar-me para viver assim.
Às vezes pergunto-me como é possível alguém que sempre desejou ter com quem falar destas coisas afastar-se de mim precisamente quando eu mais precisava.
Pergunto-me como alguém que sofreu tanto com isso agora possa estar a causar o mesmo sofrimento a uma pessoa que saiu de dentro dela, que supostamente ama incondicionalmente. Como?
Pergunto-me como é que duas almas com tanta sensibilidade se encontram e ainda assim falham em tocar-se, em conectarem-se uma com a outra.
Mas acho que as respostas são mais antigas, muito mais antigas que eu e ela.
São feridas ancestrais que recebemos de herança. Padrões que se repetem porque ninguém teve a coragem de parar esta corrente. E quando penso nisso, percebo que a minha mãe não se afastou de mim por indiferença. Porque eu sei que ela me ama. Mas é um amor contido, frio em alguns momentos. Ela afastou-se, talvez por não conseguir lidar com certas coisas que sempre a incomodaram. Porque eu sou o reflexo daquilo que ela não aguentou ver e sentir a vida inteira.
E se isso dói? Ai se dói… já não bastava ter um “pai” sem capacidades para tal, agora também tenho que enfrentar isto com a minha mãe.
Mas ser sensível, ser empático, ou ser especial, não significa saber amar. Não significa saber abraçar. Não significa ter o coração aberto e ter maturidade para lidar com isso.
Por vezes sinto que aquilo que recebi e fui carregando comigo durante a minha vida foi a mesma solidão que ela sempre sentiu. Uma tristeza que herdei e que nunca chegou a ser transformada.
E vejo que sou o primeiro da linha a tentar quebrar este ciclo. Mas não foi porque tinha consciência plena disso. Foi porque a vida obrigou-me a enfrentar esses desafios, com tanta violência que foi impossível ignorar os sinais, e só me restou sentar-me numa cadeira e olhar de frente para eles.
Muitas foram as semanas com crises de ansiedade, outras com medos avassaladores irracionais, outras com desconfortos físicos e emocionais intensos. Mas sentei-me na cadeira, e com toda a dor, fui o primeiro a dar voz a tudo isto.
Houve dias em que o corpo tremia sem motivo. Dias em que o ar parecia lixa autêntica, preso dentro do peito. Dias em que eu acordava já com picos de adrenalina e ansiedade, como se o chão tivesse desaparecido. Dias e noites em que o coração batia tão depressa que parecia que ia romper a pele e sair do peito.
E ainda houve outros dias piores. Aqueles dias em que tudo é mau, em que a mente inventa sombras onde elas não existem, em que o silêncio é ensurdecedor, em que tudo é simplesmente demasiado. O mundo a empurrar para dentro de mim coisas que eu nunca pedi para sentir.
Mas mesmo assim, sentei-me naquela cadeira. Não sei se quem estava sentado do outro lado da mesa, estava preparado para tamanha violência que ali chegara, mas peça a peça fomos montando um belíssimo puzzle. E foi aí, naquele dia tão violento em que já tinha chegado ao meu limite há muito tempo, que comecei a quebrar os ciclos. Olhei para dores ancestrais que nunca conseguiram enfrentar. Olhei para os fantasmas que sempre me aprisionaram dentro da minha própria mente. Olhei para os meus ancestrais, para as ausências, para os traumas, para as feridas que passaram de geração em geração até chegarem a mim.
E eu fui o primeiro a dar o passo. Empurrado de forma violenta, mas foi o maior, melhor e mais importante passo da minha vida. A maior aventura, experiência da minha vida, e que me vai levar a um caminho muito importante: à liberdade de ser, de sentir.
A verdade é esta: senti toda a dor por inteiro porque mais ninguém quis senti-la e trabalhá-la antes. Portanto, de certa forma, sinto que não era merecedor de tamanha manta de retalhos… mas aqui estou.
Apesar de tudo, eu sinto. Sinto demais. Sinto o que ela sente. Sinto o que ela reprime. Sinto o que ela não consegue processar. E sinto, sobretudo, o que me faltou. Mas, no meio de tudo isto, desta dor, há algo que continua a crescer dentro de mim. Algo que me diz que esta sensibilidade, por mais pesada que seja, não é uma condenação. É só uma fórmula da vida. Uma forma de escolher com quem caminho lado a lado nesta estrada.
Apesar de, pelo menos agora, a minha mãe não estar ao meu lado como eu precisaria, faço um esforço para olhar à minha volta e perceber que tenho outros laços importantes que caminham ao meu lado, que me dão a mão para eu não cair, que me guiam o caminho, que me deixam ser quem eu sou verdadeiramente. E por vezes, algumas dessas pessoas surgem de formas absolutamente curiosas, como a minha terapeuta/guia, o João, a Francisca e a Kika (a minha companheira felina)… pessoas que não tentam apagar quem eu sou.
Talvez este seja o destino dos que sentem demais. Não caminhar com muitos. Caminhar com os certos.
E, no fundo, talvez a minha maior cura comece aqui: reconhecer o que herdei, trabalhar, devolver o que não me pertence e seguir com o coração ainda aberto, mesmo que o mundo insista em fechar-se.
A verdade é que toda a gente fala de conexão, mas quase ninguém aguenta sentir um coração que vibra demasiado alto.
Quem vê demais acaba por descobrir que a maior parte das pessoas prefere a comodidade da cegueira.
E o mais incrível é que volto ao início: o que a minha mãe não se consciencializa é que eu sinto exactamente o mesmo ao pensar nela. Sempre desejei que fosse ela a quebrar a distância, a estender a mão, a dizer-me que me compreendia. Mas ela retira-se para dentro de si, como se o meu modo de existir fosse demasiado intenso para ela.
Como se ela se recusasse a amar-me da forma como sou. Como se ela não me aceitasse. Será possível que a minha mãe não me ame verdadeiramente e incondicionalmente? Não sei. Sei que há amor dentro dela, apenas que não aprendeu a expressá-lo plenamente. Faltou-lhe apoio, compreensão e carinho no seu caminho.
Há uma parte dentro de mim que acredita que não estamos destinados a caminhar sozinhos. Que existe, algures, sempre alguém capaz de compreender a nossa linguagem, a nossa vibração. Mas também há outra parte, mais ancestral, que sabe que este caminho pede algum isolamento para que não percamos o fio da nossa missão.
E no meio disto tudo fico eu, parado entre dois mundos. O mundo das pessoas que vivem sem sentir e o mundo das pessoas que sentem demais, mas que raramente permanecem. Talvez seja esta encruzilhada que define um médium. Estar sempre no limiar. Nunca totalmente com o mundo. Nunca totalmente fora dele.
Mas, apesar de tudo, continuo aqui. A tentar entender. A tentar não desistir. A tentar acreditar que existe, algures, um lugar onde esta sensibilidade não é um peso.
E, certamente, todos nós carregamos algo dos nossos ancestrais. E talvez a verdadeira cura seja aprender a reconhecer o que veio deles, o que vem de nós e o que escolhemos levar para o nosso futuro.
E no fim, talvez não seja sobre ter respostas. Talvez seja sobre sentir. Sobre perceber que a dor, a distância, o silêncio… tudo isso é o que nos molda e nos ensina. Que nos obriga a escolher com quem caminhamos, a quem entregamos o nosso coração, e a quem deixamos partir.









