Um testemunho real sobre saúde mental, terapia e o impacto da hipnose clínica no processo de autoconhecimento e do desenvolvimento pessoal.
Durante muito tempo, falar de saúde mental, terapia ou procurar um psicólogo era visto como sinal de fraqueza.
Isto não é sobre fazer terapia só porque sim.
É sobre não querer continuar a viver assim.
Há coisas que não se explicam. É quase impossível. Sentem-se no corpo, apertam no peito, fazem-nos engolir palavras, baixar os olhos, perder o ânimo, fingir que está tudo bem quando não está. Começamos a sentir-nos culpados com tudo, em falta com os outros, deixamos de nos importar. Primeiro connosco, depois com os outros e depois com o mundo. Queremos lá saber do mundo lá fora.
Apenas sabemos que não temos energia para fazer nada. Só nos apetece viver em piloto automático. Acordar, trabalhar, comer e voltar a dormir. Só isso. Não queremos nada muito complicado. Não queremos conversas profundas. Sentimos um peso enorme em cima de nós. Algo que comanda os nossos sentimentos, os nossos passos, os nossos pensamentos.
Às vezes chegamos mesmo a ter acções e reacções más. Mas isso não é exactamente quem somos. É a falta de saúde mental a falar mais alto.
Eu já fui essa pessoa.
Durante anos. Já senti raiva que me consumia a toda a hora. Já me apeteceu acabar com tudo, bater em quem mais gostava, desaparecer… já não conseguia ouvir os outros, o barulho dos vizinhos, o meu próprio respirar. As coisas que me davam prazer deixaram de dar. Deixei de fazer quase tudo aquilo que gostava.
Sim, eu já fui essa pessoa durante muitos anos.
As pessoas olhavam para mim e achavam que eu estava bem e, pior, eu mentia a dizer que eu “estava bem” com um sorriso já bem treinado e automatico, enquanto por dentro havia gritos, animais selvagens a correr de um lado para o outro, muita confusão, vergonha, medos irrealistas, e uma sensação constante de não ser suficiente, de não estar certo, de não saber sequer quem eu era de verdade.
Eu achava que era uma pessoa má a tentar fazer coisas boas. Mas a verdade é que eu não escolhi ser assim.
Eu aprendi a ser assim. Cresci com violência, com raiva, com mentiras, com traições, com invejas, com injustiças. E pior, mais tarde ainda fui magoado por pessoas que amava. Aquelas que deviam me compreender, apoiar, amparar, dar colo, simplificar. Mas não. Foram exactamente todas essas pessoas que me fizeram chegar a um limite. E esse limite nada mais era que o fundo de um poço que já não descia mais.
(suspiro…)
Agora que penso nisso ao escrever isto, ainda sinto uma grande tristeza de saber que estive naquele lugar, onde os ratos e as baratas moram. Mas hoje, e graças à terapia, percebi que foi a melhor coisa que me aconteceu.
Eu precisei daquelas pessoas. Precisei daqueles momentos. Precisei de sofrer. Eu precisei de chegar àquele fundo do poço para poder chegar a um dia e dizer que não aguentava mais, que bastava, que precisava de ajuda, sem saber sequer por onde começar.
Eu só sabia que não queria fazer psicanálise, porque ser eu a falar dos meus problemas e do outro lado haver alguém que só me iria dar pancadinha nas costas, que iria tentar com que eu visse sempre o lado bom de tudo… isso não ia funcionar. Eu precisava de mais. Precisa de alguém com pulso, com coragem, com a frieza necessária de não compactuar com o meu estado, mas de me ajudar a ultrapassá-lo.
Não. Não estava tudo bem. Estava mal, tão mal que nem eu percebi a gravidade. Mas inconscientemente eu sabia que tinha de fazer qualquer coisa para contornar a situação porque ela rapidamente iria escalar para algo grave e incontornável.
E sabem o que foi pior? Pessoas que me amavam estarem constantemente a me criticar, a me julgar, a dizer que eu era bipolar, que eu não estava bem, que eu gostava de ver os outros sofrer, ou como me foi dito mesmo na cara: “que eu gostava de sangue”. Quanta frieza e maldade para uma pessoa completamente estilhaçada por dentro, que durante toda a vida tentou aguentar-se e fazer o melhor que sabia para não cair para o lado errado. Era tão fácil…
Aqui só entre nós, que ninguém nos ouve, tenho de confessar a parte mais escura de todo o tempo: eu tive pensamentos limite. E isto, acreditem, não está certo e já eram sinais claríssimos que eu tinha de fazer alguma coisa. Mas a única pessoa que sabia disso, também deve ter sofrido tanto quanto eu quando eu contava estas coisas. E acho que desesperou até eu finalmente decidir dar o passo em frente.
Comecei a fazer terapia, mas não uma terapia qualquer. Decidi experimentar hipnose, porque, pelo menos eu não ia estar uma hora sentado numa cadeira com um psicólogo a falar dos meus problemas, a sofrer novamente e no final, levar uma pancadinha nas costas como se estivesse tudo bem. Esse era um requisito. Por isso, vi a hipnose como um milagre.
Hoje ainda me lembro a primeira consulta. Entrei, sentei-me na cadeira e havia alguma coisa que não batia certo. Como era possível estar à minha frente a pessoa mais calma e tranquila que alguma vez eu tinha visto na minha vida? Aquilo não batia certo com o estado em que eu estava naquele momento, só muito tempo mais tarde percebi que esse era o perfil indicado para mim.
Mas eu disse logo no início da consulta: “Dra. faça qualquer coisa porque eu não aguento mais.” E aquilo que seria uma consulta de avaliação para perceber as minhas necessidades começou logo com um árduo trabalho.
Mal sabia eu o que me esperava, nem o estado em que realmente estava.
E não, não foi bonito.
Não foi leve.
Não foi aquela coisa romântica de “ai hoje fiz hipnose e foi super libertador”.
Eu fui, mas ainda assim achava que não ia ter resultado nenhum porque eu não confiava em ninguém para me mostrar de verdade, nem o lado bom, quanto mais o meu lado obscuro.
Foi duro.
Foi desconfortável.
Foi, muitas vezes, assustador.
Foi uma montanha russa. Houve momentos em que ela parou e eu fiquei pendurado de cabeça para baixo.
Ter começado a terapia foi como saltar de um avião a 3500 pés sem saber se o pára-quedas iria abrir. É uma montanha-russa emocional onde não controlamos nada, nem a velocidade nem as curvas. Nós não estamos preparados. A sério… romantizamos tanto a terapia mental que achamos que aquilo é quase magia: vamos ao consultório, tomamos dois ou três comprimidos e ficamos bem. Longe disso. E pior, sem comprimidos.
Mas também vamos a achar que resolvemos 30 anos de problemas em duas consultas… o pensamento mais errado que podemos ter é esse. Ninguém nos cura anos de estragos com uma, duas, três, ou quatro consultas. (Agora que já faço terapia há mais de 2 anos, pergunto-me como é possível haver terapeutas que dizem que em 4 ou 5 consultas conseguem tratar uma pessoa: desconfiem de soluções demasiado rápidas e milagrosas). Vocês vão gastar esse dinheiro e no final vão continuar com o problema. Escolham um profissional certificado e com experiência clínica!
E, sei lá, podemos falar em milagres? Acho que foi isso que aconteceu. A vida pôs-me no lugar certo, no momento certo, com a pessoa certa. Tive a sorte, e digo isto com algum peso, de encontrar um espaço que me acolheu e uma terapeuta onde me pude sentir… inteiro. Onde pude levar para aquela sala, para aquela poltrona tudo aquilo que estava bem escondido dentro de mim: as minhas piores sombras, as minhas contradições, as minhas crenças falsas, as minhas vergonhas mais profundas. Quanta sorte eu tive, não é?
Mas… sabem o que encontrei do outro lado?
Nada de julgamentos.
Nada de rejeições.
Nada de desvalidações.
Senti presença.
Senti cuidado.
Senti verdade.
Nunca senti que me tivesse dado a tal pancadinha nas costas como todo o mundo fez a vida toda. E era exactamente isso que eu precisava. Alguém que me pudesse ajudar de verdade sem fingir que estava tudo bem.
Mas houve sessões em que falei a tremer. Literalmente, com as pernas a tremer, com o coração aos pulos, a suar de nervoso, com falta de ar da ansiedade, com a voz presa. Houve coisas que eu nunca tinha dito a ninguém. Nem a mim próprio.
E mesmo assim… nunca me senti desamparado.
Nunca.
E isso muda tudo.
Foi a única pessoa até hoje, em quem eu consegui confiar verdadeiramente, porque sabia que o podia fazer. Porque sabia que aquela pessoa nunca me iria trair, nunca me iria enganar. Ela estava ali apenas a dar o seu melhor para que eu pudesse encontrar-me novamente. E confesso que dei, e ainda dou, muito trabalho.
Não fui/sou um paciente fácil. E não digo isto com orgulho. Sinto que eu também fui um desafio para a própria terapeuta.
Quando alguém nos vê, mesmo nas partes que nós próprios evitamos, e não se afasta, não critica, não julga… há algo dentro de nós que também começa devagarinho a reorganizar-se.
A terapia não me “consertou”.
A terapia não me transformou numa versão perfeita de mim próprio.
Ao contrário de comentários que ouvi de pessoas próximas que diziam como era possível eu estar a fazer terapia e ainda ter determinado comportamento. Como se a terapia fosse magia. Como se fosse uma operação estética, onde entramos com um nariz torto e saímos de lá com um nariz perfeito. Esqueçam isso. E para já, a terapia é nossa, é para nos servir, não para sermos perfeitos aos olhos dos outros. Porque no final seremos sempre nós que termos de conviver connosco próprios.
E mais importante que tudo, a terapia não faz absolutamente nada se vocês não quiserem e aceitarem o tratamento de verdade, com responsabilidade e com compromisso. Se for só para ir passar férias durante uma hora, esqueçam. Não vão a lugar nenhum.
Mas a terapia fez algo muito mais importante: mostrou-me quem eu sou verdadeiramente.
E isso… ao mesmo tempo que pode ser assustador é verdadeiramente libertador de uma forma que não se explica.
Tive a sorte da terapeuta trabalhar com diversas abordagens… fiz hipnose clínica, constelações familiares, fiz mergulhos internos que nem eu sabia que eram possíveis. E cada passo, cada consulta era um confronto. Comigo. Com a minha história. Com as minhas crenças. Com tudo aquilo que eu acreditava que era a verdade.
Spoiler alert: muita coisa não era.
Crenças que carreguei comigo durante anos, sobre mim, sobre os outros, sobre o mundo, começaram a cair. Algumas desfizeram-se de um dia para o outro. Outras resistiram, lutaram, voltaram a aparecer.
Porque fazer terapia não é linear.
Nunca é.
Há dias em que nos sentimos mais leves, mais conscientes, mais inteiros.
E há outros dias em que parece que regredimos tudo, até ao primeiro dia.
E percebi que faz parte. A maior das lições que aprendi, e talvez a mais difícil de aceitar, foi esta: não somos apenas luz.
Também somos sombra. E não há verdadeira transformação sem aceitar ambas.
Passei anos a tentar ser “melhor”, a tentar afastar aquilo que não gostava em mim. A rejeitar as minhas sombras, a criticá-las, a escondê-las.
Hoje, essas partes também são orgulhosamente minhas. Porque hoje sei que não preciso de agradar ninguém. Porque só eu, e só eu, que tenho que conviver com os meus dois lados tão diferentes, olhá-los ao espelho e aceitar.
E quanto mais rejeitava, mais elas gritavam. A terapia ensinou-me a olhar para elas. Sem fugir, sem mascarar, sem romantizar.
Apenas olhar. Apenas aceitar aquilo que é. Porque ninguém é perfeito, por muito que eu quisesse chegar ao tipo extremo da perfeição.
E foi aí que começou a nascer a compreensão. Um dos momentos mais marcantes deste caminho foi perceber algo que me abanou completamente por dentro e que eu não estava propriamente à espera.
Aquilo que eu mais criticava noutra(s) pessoa(s), no meu caso, em uma ou duas pessoas específicas, funcionava, em muitos aspectos, como um espelho.
Aquilo que eu achava que nos afastava, era, afinal, aquilo que nos ligava. E isso à primeira vista pode ser traumatizante:
“Como é possível criticarmos tanto uma pessoa e afinal temos partes iguais ou parecidas?”
Mas bom, faz parte do autoconhecimento, do crescimento, perceber que há pessoas que funcionam como espelho, que aquilo que não gostamos no outro, pode, na verdade, ser algo que temos em nós próprios e que não gostamos.
Padrões semelhantes.
Feridas parecidas.
Histórias que, mesmo diferentes, tocam nos mesmos lugares.
E isso não significa que, de repente, passei a gostar ou a concordar com a pessoa.
Mas mudou tudo.
Porque quando compreendemos, já não há espaço para sentirmos aquele peso. Já não há aquela rigidez que nos prende.
E isso… é liberdade.
Hoje, quando olho para trás, dois anos depois, começo a reconhecer um menino genuíno que conheci há muito e muito tempo atrás. Mas muito mais livre, porque talvez ele pode nunca ter tido a oportunidade de ter sido assim: uma criança.
Mas não porque me tornei noutra pessoa, atenção.
Eu continuo a ser a mesma pessoa, para infelicidade de muita gente. Mas hoje, sou mais capaz, tenho mais coragem, mais amor próprio, mais empatia, mais capacidade de ver de outra perspectiva, não só pela minha.
Porque, finalmente, comecei a ser mas eu. O meu eu verdadeiro.
Com mais consciência.
Com mais responsabilidade.
Com mais diamantes incríveis que descobri dentro de mim.
Com mais auto-aceitação.
Com mais compreensão de que todos temos imperfeições.
Com mais verdade, principalmente comigo, que é o que interessa.
Ainda com falhas, é verdade. Ainda com medos. Ainda com dias maus.
Mas inteiro. E isso vale tudo.
E foi no meio de todo este processo que comecei a perceber uma coisa, não só sobre mim, mas sobre todos nós: vivemos numa sociedade que nos ensina a funcionar, mas não a sentir.
A produzir, mas não a compreender.
A esconder, mas não a integrar.
Durante muito tempo, falar de saúde mental foi sinal de fraqueza.
E muitos de nós crescemos a aprender exactamente isso dentro do nosso seio familiar. Aliás, quem mostra sentir demais é logo catalogado como incapaz, com algum defeito, olhado de lado, posto de lado, gozado pela família, pelos colegas. Ou como já me disseram, que eu devia ser bipolar.
Hoje, aquilo que chamavam de “bipolar”, eu vejo de outra forma. Com a felicidade de saber que sou livre de ir para a esquerda e a meio do caminho poder escolher virar à direita. Ou então de me apetecer ir para a esquerda e para a direita ao mesmo tempo. E mesmo que não seja possível, ninguém tem nada a ver com isso.
E é então que nos perguntamos porque estamos cansados. Porque estamos ansiosos. Porque nos sentimos perdidos. Hoje a sociedade vive na Era do ansiolítico. E achamos isso normal.
A terapia não é uma solução mágica.
Não é igual para todas as pessoas.
E nem sempre é confortável. Nem sempre é fácil.
É como a vida. Tem dias bons e outros mais desafiantes.
Mas, ainda que neste momento eu não tenha terminado o meu percurso na terapia, é, sem dúvida, uma das experiências mais poderosas e fascinantes que existem para nos conhecermos. Para quem tem coragem, claro está. Haverá sempre pessoas que vão preferir manter a sua visão de pessoa perfeita.
Mas não há nada, nada mesmo, mais libertador que isso. Conhecermo-nos.
Percebermos a nossa história e compreendermos os nossos ancestrais.
Percebermos de onde vimos.
Porque reagimos como reagimos.
Que padrões repetimos todos os dias sem darmos conta.
Que histórias contamos a nós próprios para nos enganarmos e que já não nos servem para nada.
E, a partir daí… escolher.
Escolher diferente.
Escolher com consciência.
Escolher com verdade.
Por isso, sim: por todos os altos e baixos, por todos os dias mais difíceis, por todos os momentos que ficamos pendurados de cabeça para baixo na montanha-russa: façam terapia.
Pela vossa paz.
Pelas vossas relações.
Pelo vosso futuro.
Pela vossa liberdade.
Pelo vosso autoconhecimento.
Pela vossa cabeça…
e pela nossa também.
Porque pessoas mais conscientes criam relações mais saudáveis. Criam ambientes mais seguros à sua volta. Criam mundos mais inteiros, ainda que aos poucos.
Se há decisão que mudou a minha vida, que me vai mudar para sempre, e que eu voltava atrás e repetia a mesma coisa todas as vezes, foi esta.
E se este texto te fizer sentido a dar esse primeiro passo… então já valeu a pena.
Se chegaste até aqui, espero que tenhas a coragem de fazer algo incrivelmente poderoso por ti. Não pelos outros, que já tanto fizeste. Mas por ti.
Se isto te causou algum desconforto, talvez valha a pena escutares isso com atenção.
Para terminar, não posso deixar de agradecer à profissional que tem tido um papel importante no meu percurso: a Dra. Rita Fonseca, terapeuta com mais de 14 anos de experiência, especializada em hipnose clínica, constelações familiares e outras abordagens terapêuticas. Há coisas que não se conseguem explicar, só agradecer. E que sorte tive eu em que os nossos caminhos se cruzaram.
Se tiveres curiosidade, podes consultar o seu trabalho e os métodos terapêuticos aqui: https://hipnoseclinicarf.com
Se este texto te fez sentido, partilha com alguém que possa precisar de ler isto. Porque falar de saúde mental tem de deixar de ser tabu para poder ajudar pessoas que vivem presas dentro de si próprias.
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