🌱 Este site é livre de anúncios. Com apenas 0,50€ ajudas a manter o site e causas sociais.

estamos-a-transformar-o-sexo-num-produto-descartavel

Estamos a transformar o sexo num produto descartável?

As aplicações de encontros facilitaram o contacto entre pessoas, mas também levantam questões sobre a forma como vivemos a sexualidade. Estaremos a confundir liberdade com indiferença e a tratar as pessoas como experiências descartáveis? Uma reflexão sobre sexo casual, desejo, intimidade e respeito.

Nunca foi tão fácil encontrar alguém com quem ter sexo. Basta abrir uma aplicação, percorrer alguns perfis, trocar meia dúzia de mensagens e perceber se existe interesse mútuo. Às vezes, nem é preciso muito mais do que uma fotografia para despertar o desejo. Noutras ocasiões, uma conversa que parecia promissora termina sem que chegue a existir um encontro. Conhecemos pessoas, perdemos o interesse, desaparecemos e voltamos à procura, como se a possibilidade seguinte estivesse sempre à distância de um gesto no ecrã.

Não há nada de errado em procurar sexo, em sentir desejo ou em preferir encontros sem compromisso. A liberdade de viver a sexualidade sem ter de justificar as próprias escolhas é importante, sobretudo numa sociedade que durante muito tempo impôs regras diferentes consoante o género, a orientação sexual ou o número de parceiros de cada pessoa. Mas será que, no meio de tantas possibilidades, estamos a perder alguma coisa na forma como nos relacionamos?

Não me refiro à ideia de que o sexo tem de envolver amor, nem à expectativa de que um encontro ocasional se transforme numa relação. Refiro-me à facilidade com que, por vezes, passamos de uma pessoa para outra sem sequer nos questionarmos sobre a maneira como tratamos quem encontramos pelo caminho.

 

Quando conhecer alguém se transforma numa escolha de catálogo

As aplicações de encontros mudaram a forma como muitas pessoas conhecem potenciais parceiros sexuais. Em vez de dependermos dos círculos sociais, dos locais que frequentamos ou das coincidências da vida, temos acesso a uma quantidade de perfis que dificilmente encontraríamos no quotidiano. Podemos definir preferências, estabelecer limites e procurar pessoas com interesses semelhantes aos nossos. Para quem vive numa cidade pequena, tem dificuldade em conhecer pessoas ou procura alguém com uma orientação sexual específica, estas plataformas podem representar uma oportunidade real.

O problema não está na tecnologia, mas na maneira como nos habituamos a utilizá-la.

Quando temos dezenas de pessoas disponíveis para conhecer, torna-se fácil olhar para cada perfil como mais uma possibilidade entre muitas. Uma fotografia não desperta interesse? Passamos à seguinte. A conversa não corresponde às expectativas? Procuramos outra. A pessoa parece interessante, mas demora a responder ou não corresponde exactamente àquilo que imaginávamos? Podemos simplesmente deixar de investir nela, porque há sempre mais alguém para descobrir.

Esta lógica não fica necessariamente dentro da aplicação. Podemos começar a transportar para os encontros presenciais a mesma impaciência com que percorremos os perfis. Queremos sentir atracção rapidamente, perceber se vale a pena continuar e obter alguma satisfação da experiência. Se isso não acontece, perdemos a vontade de descobrir o que existe para além da primeira impressão.

É como se estivéssemos sempre a comparar aquilo que temos com aquilo que ainda podemos encontrar.

Mas as pessoas não são produtos com características que podemos consultar antes de decidir se nos interessam. Há aspectos da personalidade que só descobrimos numa conversa mais longa, formas de estar que nos surpreendem e qualidades que não cabem numa fotografia nem numa descrição de três linhas. Quando a procura se transforma numa sucessão de avaliações rápidas, podemos acabar por rejeitar pessoas antes de termos verdadeiramente oportunidade de as conhecer.

Claro que ninguém tem de dar uma oportunidade a alguém por obrigação. A atracção não se negoceia, e cada pessoa tem o direito de escolher com quem quer estar. A questão é perceber se estamos a fazer escolhas conscientes ou se nos habituámos tanto à possibilidade de substituir alguém que já nem sentimos curiosidade em descobrir quem está do outro lado.

 

Sexo casual não é sinónimo de falta de sentimentos

Há uma ideia que importa esclarecer antes de continuar: ter sexo sem compromisso não significa ser incapaz de criar ligações, ter medo de amar ou procurar preencher um vazio emocional. Estas interpretações são frequentemente utilizadas para julgar quem vive a sexualidade de forma diferente daquela que a sociedade considera desejável.

Uma pessoa pode gostar de sexo casual, sentir-se bem com essa escolha e não querer uma relação amorosa. Pode desfrutar da atracção física, da novidade e do prazer sem esperar que exista continuidade. Outra pessoa pode procurar encontros ocasionais numa determinada fase da vida e desejar uma relação estável noutra. Não existe uma única forma correcta de viver a sexualidade.

Também não precisamos de transformar todos os encontros em experiências profundas. Por vezes, existe atracção, vontade de estar com alguém e prazer, sem que haja interesse em conhecer melhor a pessoa ou voltar a encontrá-la. Isso não torna a experiência menos legítima.

A dificuldade começa quando assumimos que, por não existir um compromisso amoroso, tudo o resto deixa de importar.

Podemos não querer uma relação e, ainda assim, ser honestos sobre as nossas intenções. Podemos não sentir vontade de repetir um encontro e comunicar isso sem humilhar ninguém. Podemos mudar de ideias, desde que respeitemos os limites da outra pessoa. Nada disto exige amor, promessas ou uma ligação que não existe.

Exige apenas que saibamos distinguir a liberdade de escolher aquilo que queremos da ideia de que podemos tratar os outros de qualquer maneira.

Talvez seja aqui que a discussão sobre o sexo descartável se torna mais interessante. Não é necessário defender que devemos criar laços com todas as pessoas com quem temos relações sexuais. O que vale a pena questionar é porque é que, em determinadas situações, a ausência de compromisso parece servir de justificação para a ausência de consideração.

 

O que acontece quando o interesse desaparece?

Imaginemos duas pessoas que se conhecem numa aplicação. Conversam durante alguns dias, trocam fotografias, combinam um encontro e acabam por ter sexo. Uma delas sente vontade de repetir a experiência. A outra percebe que não quer continuar.

Não há qualquer problema nisso. O desejo não é uma promessa, e ninguém fica obrigado a manter o interesse só porque houve intimidade. O problema está na forma como a situação é gerida.

Em vez de dizer que não pretende voltar a encontrar-se, a pessoa que perdeu o interesse deixa de responder. As mensagens ficam sem resposta, as conversas desaparecem e quem estava do outro lado fica a tentar perceber se aconteceu alguma coisa ou se fez algo de errado.

Nem todos os desaparecimentos têm a mesma explicação. Pode haver desconforto, receio de uma reacção negativa, falta de disponibilidade emocional ou simplesmente a vontade de evitar uma conversa desagradável. Existem também situações em que o afastamento é necessário para proteger a própria segurança ou estabelecer um limite. Não podemos presumir que todas as pessoas têm a obrigação de continuar uma conversa, muito menos quando se sentem ameaçadas.

Ainda assim, há uma diferença entre terminar um contacto e deixar deliberadamente alguém sem qualquer explicação quando seria possível comunicar de forma simples e respeitosa.

Por vezes, parece que a facilidade com que conhecemos pessoas também tornou mais fácil fingir que nunca as conhecemos. O encontro aconteceu, houve proximidade, talvez até uma conversa sobre a vida de cada um, mas, quando o interesse termina, tudo pode ser apagado com a mesma facilidade com que se elimina uma conversa do telemóvel.

Não estou a defender que devemos explicações detalhadas a todas as pessoas que encontramos, nem que um encontro sexual cria uma obrigação sentimental. Estou a falar da diferença entre não querer continuar e agir como se a outra pessoa não merecesse sequer uma resposta.

O respeito não depende da duração de uma relação. E uma despedida não precisa de ser dolorosa para ser honesta.

 

Será que estamos sempre à procura de alguém melhor?

Existe outra questão que raramente discutimos quando falamos de aplicações de encontros: a sensação de que podemos estar a perder uma oportunidade melhor enquanto estamos com a pessoa que escolhemos.

Mesmo quando encontramos alguém interessante, sabemos que há outros perfis disponíveis. Talvez mais atraentes, mais próximos, mais compatíveis com as nossas preferências ou simplesmente diferentes. A procura pode continuar mesmo quando já existe alguém com quem gostamos de conversar ou de ter sexo.

Isto não significa que as aplicações condenem as pessoas à insatisfação. Nem significa que devamos deixar de conhecer outras pessoas assim que sentimos atracção por alguém. Enquanto não houver um acordo de exclusividade, cada um é livre de decidir como quer viver os seus encontros.

Mas vale a pena perguntar se a quantidade de opções disponíveis nos ajuda sempre a escolher melhor ou se, em certos casos, nos torna mais impacientes e menos disponíveis para conhecer alguém para além daquilo que conseguimos avaliar num primeiro contacto.

Quando acreditamos que existe sempre alguém potencialmente melhor, qualquer imperfeição pode parecer uma razão para procurar outra pessoa. Uma conversa menos interessante, uma diferença de gostos ou um encontro que não corresponde inteiramente às expectativas podem ser suficientes para perdermos o interesse. Não porque exista necessariamente alguma incompatibilidade importante, mas porque continuamos a imaginar o que poderíamos encontrar a seguir.

É difícil saber até que ponto esta dinâmica afecta a vida sexual de cada pessoa, e seria injusto atribuir às aplicações todos os problemas das relações modernas. A dificuldade em criar ligações, o medo da rejeição e a falta de comunicação existiam muito antes dos telemóveis. A tecnologia não inventou estes comportamentos, mas pode facilitar algumas das suas manifestações.

E talvez seja precisamente por isso que importa reflectir sobre a maneira como a utilizamos. Não para regressarmos a uma época em que conhecer alguém era mais difícil, mas para percebermos se a facilidade de encontrar pessoas está a ser acompanhada pela capacidade de as conhecer.

 

O sexo tem de significar alguma coisa?

Talvez algumas pessoas leiam este artigo e concluam que estou a defender que o sexo deve ter sempre um significado emocional. Não é essa a minha intenção.

O sexo pode ser prazer, curiosidade, descoberta, uma forma de explorar o próprio corpo ou uma experiência partilhada com alguém por quem sentimos atracção, sem que exista amor. Para algumas pessoas, a dimensão emocional é indispensável. Para outras, não é necessária para que a experiência seja satisfatória. Há ainda quem descubra que as suas necessidades mudam consoante a pessoa, a fase da vida ou as circunstâncias.

Nenhuma destas possibilidades deve ser automaticamente considerada superior às outras.

A questão não é exigir profundidade onde ela não existe. É não confundir a ausência de profundidade com a ausência de respeito.

Podemos ter sexo com alguém sem querer saber tudo sobre a sua vida. Podemos desfrutar de um encontro e não sentir vontade de o repetir. Podemos decidir que não queremos voltar a falar com uma pessoa. O que não precisamos de fazer é desvalorizar a experiência só porque não resultou naquilo que esperávamos, nem tratar o outro como se o seu valor dependesse da capacidade de satisfazer os nossos desejos.

Afinal, também não precisamos de gostar de todas as pessoas que conhecemos para reconhecer que têm valor. Não precisamos de sentir atracção por alguém para o tratarmos com dignidade. E não precisamos de estar apaixonados para sermos honestos.

Talvez tenhamos confundido a ideia de que ninguém nos pertence com a ideia de que ninguém nos deve consideração. São coisas diferentes. Ninguém tem o direito de controlar os desejos ou as escolhas de outra pessoa, mas todos podemos decidir que tipo de comportamento estamos dispostos a aceitar e que tipo de pessoa queremos ser nos nossos encontros.

 

A liberdade de escolher também implica saber o que procuramos

Não acredito que a solução esteja em reduzir o número de encontros, abandonar as aplicações ou transformar o sexo casual numa coisa que exige justificações. Cada pessoa deve poder viver a sua sexualidade de acordo com os seus desejos, desde que respeite o consentimento, os limites e a liberdade dos outros.

Mas acredito que vale a pena sermos honestos connosco próprios. Quando procuramos alguém, sabemos o que queremos ou estamos apenas a tentar sentir alguma coisa? Queremos prazer, companhia, validação, novidade ou uma ligação que ainda não sabemos definir? E, quando percebemos que a outra pessoa procura algo diferente, conseguimos comunicar isso ou preferimos desaparecer e começar tudo de novo com alguém?

Não há respostas universais. Procurar validação através do desejo dos outros não é necessariamente um problema, e sentir vontade de conhecer pessoas diferentes não significa que exista alguma coisa errada connosco. O importante é reconhecer as nossas motivações e perceber quando determinados comportamentos deixam de nos fazer bem ou começam a afectar quem se cruza connosco.

Também não precisamos de transformar cada encontro numa análise sobre as nossas emoções. Às vezes, basta desfrutar do momento. Mas desfrutar do momento não implica deixar de pensar nas consequências das nossas escolhas.

No fundo, talvez a pergunta não seja se estamos a transformar o sexo num produto descartável, mas se estamos a começar a olhar para as pessoas dessa forma. O sexo casual pode ser uma escolha livre, consciente e satisfatória. Pode não envolver amor, compromisso ou vontade de repetir. E não tem de ser defendido perante quem acredita que só existe intimidade quando há sentimentos românticos.

O que merece reflexão é a facilidade com que podemos passar a ver cada pessoa apenas em função daquilo que nos oferece, esquecendo que também nós somos avaliados, escolhidos e, por vezes, deixados para trás.

Não precisamos de querer ficar para sabermos estar. Não precisamos de amar para respeitar. E não precisamos de transformar cada encontro numa história para reconhecer que, durante aquele momento, partilhámos alguma coisa com outro ser humano.

Provavelmente seja essa a diferença entre viver a sexualidade com liberdade e viver como se tudo fosse descartável. Não está na quantidade de pessoas que conhecemos, na frequência com que temos sexo ou na vontade de assumir uma relação. Está na forma como escolhemos tratar quem encontramos, mesmo quando sabemos que os nossos caminhos não vão continuar juntos.

❤️

Este site é um projecto independente e sem publicidade. Se o que leste hoje te foi útil, considera retribuir com um pequeno gesto de 0,50€ ou 1,00€. Isso ajuda a manter o site no ar e o que sobrar reverte para causas sociais.

Quero fazer um donativo →
rickyunic
rickyunic

Um projecto com mais de 22 anos, onde apresento e abordo assuntos que me interessam a cada momento da vida. Desde humor, a saúde, passando pela tecnologia, a sexualidade e a espiritualidade. Tudo é válido neste espaço. Conto consigo para passar um bom momento a dois.
Peace and Love.
Carpe diem.
Namastê.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *