Sei exactamente em que momento aconteceu. Sei exactamente aquele segundo em que olhei para ti, ali ao meu lado na cama. Também vulnerável, como se estivéssemos a cometer o maior pecado. O teu coração palpitava. Tinhas aquele olhar envergonhado, como se também não soubesses muito bem o que estava a acontecer…
Eu só sei que pela primeira vez senti que estava inteiro ao teu lado, sem tentar proteger-me.
Sei lá o que é que me deu nesse momento.
Foi uma droga, mas não química.
Foi só olhar para ti, tocar-te, massajar-te as costas, sentir as tuas mãos suaves e sensíveis, pousar a minha mão no teu peito e… foda-se, a minha cabeça viajou e disparou em direcção ao céu.
Passei tanto tempo a viver com o coração em modo de protecção. Já vi muitos filmes, muitas vidas… e sei que o amor tem aquela coisa parola que simplesmente não combina comigo. Eu, caramba, aquela pessoa fria, congelada, que não se abalava por nada. Não havia nada aqui dentro, sabes?
Sempre gostei com muitas reservas, com muita distância, com muita prudência.
Jamais viveria um amor tão grande, porque jamais teria coragem para ser livre a esse ponto.
Mas… contigo, sei lá, que feitiço me fizeste, tudo isso desapareceu.
Não sei se foi a tua inocência, a tua maneira de ser, a tua energia, a forma como estavas também vulnerável ao meu lado, como se estivéssemos em pecado juntos. Como se tivéssemos o coração um do outro nas mãos.
E pela primeira vez, eu só queria estar ali contigo. Inteiro. Verdadeiro. Sem o tempo. Sem vergonha. Como se fôssemos apenas duas almas ligadas por fios invisíveis, tão intensos que faziam estremecer a casa.
E dei-te aquilo que tinha, sem fazer contas, sem esperar nada de ti, sem me perguntar se estava a ultrapassar as minhas linhas vermelhas. Pela primeira vez dei, sem me assustar.
E, afinal, aos 35 anos, descobri que ainda havia tanto por explorar dentro de mim. Uma divisão que nunca tinha visitado, sempre fria, cinzenta, sem luz. Nem imaginava que existia.
Afinal, por detrás de todas as defesas, de todas as vezes em que escolhi não sentir demasiado, havia esta capacidade de gostar, de cuidar, de querer ficar, de me fundir contigo, de te abraçar, de te beijar. Descobri que podia ser vulnerável, não ter vergonha de sentir, ser livre e oferecer tudo aquilo que há dentro de mim. Ser finalmente um fiel pecador neste mundo.
Na verdade, sinto falta de te ouvir, de te tocar, de te abraçar, de sentir a tua energia ao meu lado, o teu olhar, a tua ingenuidade, a tua beleza e até de saber como correu o teu dia…
Afinal havia um lado parolo dentro de mim, quem diria.
Sei que a vida não é um filme. Sei que os aviões partem, que as pessoas seguem caminhos diferentes e que nem todos os sentimentos encontram um lugar certo para acontecer. Sei que não és a perfeição e que talvez nunca possamos ser aquilo que, em alguns momentos, a minha imaginação insiste em criar.
Mas há uma parte em mim que só sonha com aqueles finais clichés de filmes românticos, em que vou entrar no avião e ao longe ouço chamares o meu nome, olho para trás e estás lá de braços abertos e eu corro para ti. Era só isto que eu queria neste momento.
Fodasse, eu sei, é do mais parolo que há e ridiculamente romântico… mas até tem uma certa piada, quando penso na pessoa que sou e que agora isto me está a acontecer.
Não sei o que fui para ti. Nem sequer sei o que aconteceu comigo. Só sei que te quero. Quero-te de todas as formas, com todas as imperfeições, apenas quero-te.
E gostava de sentir isso sempre e para sempre. Mas sei que é impossível, por isso, por muito que doa não ser como eu quero, vou guardar dentro de mim.
Neste momento, é contigo que consigo ser assim. Não sei se voltarei a sentir esta liberdade, nem se a vida me levará a descobri-la noutro lugar. Não quero fazer promessas ao futuro, nem retirar significado ao presente. Hoje, és tu. E é assim que sinto.
Não quero chegar ao fim da vida com a sensação de que nunca larguei a corda, mas sei que neste momento só a consigo largar contigo. Quero poder dizer que, pelo menos uma vez na vida, deixei o coração falar livremente, sem lhe pedir explicações nem lhe impor linhas vermelhas inultrapassáveis. E lembrar-me-ei para sempre que foi contigo.
Ai, se eu pudesse escolher, só queria mais tempo, mais conversas, mais momentos contigo mesmo daqueles insignificantes, mais silêncios…
Só queria que soubesses, mesmo que estas palavras nunca te cheguem, que houve alguém que, durante um instante, deixou de ter medo de sentir.
E esse alguém fui eu.
Talvez não sejas o meu destino. Talvez sejas apenas alguém que passou pela minha vida para me fazer perceber que posso abrir uma janela que eu próprio tinha mantido fechada durante demasiado tempo.
Mas, se há alguma coisa que hoje sei, é que não quero voltar a viver com as janelas fechadas.
Porque afinal, dentro de mim, havia amor. Tanto amor. Não foste tu que me trouxeste o amor. Mas ajudaste-me a descobrir o que já aqui estava.
A intensidade é astronómica. Dói. É como viver permanentemente com o coração em taquicardia. É assim que me sinto quando penso em ti. E não quero que o medo me volte a roubar aquilo que descobri através de ti, dentro de mim.
Eu é que ainda não sabia.
Mas, no fundo, foram apenas dois dias. Dois dias. Como é possível que tão pouco tempo possa deixar tanto dentro de alguém? Como é possível que alguns instantes tenham uma dimensão tão desproporcionada ao tempo que lhes foi concedido? Que intensidade é esta que não cabe na memória de dois dias e continua a acontecer dentro de mim, como se ainda estivesses aqui?
Estarei louco? Louco por ti? Louco por aquilo que vivi? Ou simplesmente maravilhado com a descoberta de que, afinal, também sou capaz de amar assim?
Talvez sejam as três coisas.
Só sei que foram dois dias contigo. Dois dias que, para o mundo, talvez não tenham sido mais do que isso. Mas, dentro de mim, alguma coisa mudou de lugar. E, por mais que tente regressar à pessoa que era antes, há uma parte de mim que ficou naquele instante, naquela cama, naquele olhar, naquele momento em que deixei de ter medo de sentir.
Acho que é essa a parte de que tenho tantas saudades. Não apenas de ti, mas também de quem fui quando estavas ali. Há coisas dentro de nós que ainda estão por revelar, lugares que nunca visitámos, capacidades que nem imaginávamos possuir. Somos muito mais do que aquilo que conhecemos de nós próprios.
E acho que é isso que ficou de ti em mim. Uma espécie de eco de luz que continua a atravessar-me o corpo, mesmo que já não estejas aqui.
E se há coisa que não consigo explicar é esta: passaram apenas dois dias, mas há uma parte de mim que ainda lá está.
Contigo. Comigo. Juntos. Naquela cama.
E, independentemente do futuro, serás sempre um pouco meu e eu serei sempre um pouco teu.
E, se ainda pudesse escolher como termina esta história, queria apenas olhar para trás, naquele aeroporto, e ver-te de braços abertos, à minha espera. Para correr na tua direcção e voltar a abraçar-te.
Comentário do escritor:
Sinceramente, não sei como fui capaz de escrever isto. Mas “isto” está dentro de mim. E não sei se há cura. Talvez tenha sido preciso alguém, quase como uma espécie de guia que aparece no momento certo, ajudar-me a abrir os olhos e a perceber que havia caminhos que eu ainda não tinha tido coragem de percorrer.
Mas, porra, a vida é tão incrível, cheia de surpresas quando menos esperamos. Às vezes, precisamos mesmo de fechar algumas portas para descobrir o que existe para lá delas. E, mesmo com medo, precisamos de dar certos passos em frente. De nos permitirmos. De sermos livres. Porque, no fim de contas, todos devíamos poder viver um momento “parolo”, pelo menos uma vez na vida.
Com o amor que ainda estou a descobrir,
do Rickyunic
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