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Não é tudo o mesmo amor. Mas tudo é amor.

Durante muito tempo, achei que não tinha amor dentro de mim.

Não sei exactamente porquê. Talvez achasse que o amor era uma fraqueza, talvez nunca tivesse pensado muito no assunto. Simplesmente, não sentia aquilo que imaginava que devia sentir. Via uma notícia trágica, alguém perder a vida, uma família ficar sem nada num incêndio, e seguia com a minha vida. Não sentia pena, não ficava particularmente afectado. Era uma coisa que acontecia aos outros, num mundo que continuava a girar independentemente do que acontecesse a cada um de nós.

Ao mesmo tempo, gostava de fazer coisas pelos outros. Preocupava-me com algumas pessoas, queria ajudar, estava presente quando sentia que alguém precisava de mim. Mas não associava esses gestos ao amor. Para mim, eram apenas coisas que fazia porque me apetecia fazê-las. O amor era outra coisa, algo que parecia pertencer aos outros e que eu não sabia se alguma vez tinha sentido verdadeiramente.

Até que, sentado à frente de uma secretária, alguém me perguntou se eu não amava a minha gata Kika.

E aquela pergunta fez-me parar. Confesso que abanou toda uma estrutura que tinha construído dentro de mim à volta daquilo que julgava ser o amor.

Claro que amo a Kika. Amo aquela criatura que olha para mim com a confiança de quem sabe que está protegida, que encontra em mim um lugar seguro e que não precisa de compreender o mundo para saber que pode descansar ao meu lado. Amo a sua presença, as suas manias, a forma como faz parte da minha vida sem precisar de dizer uma única palavra. A forma como manda na casa e como, no fim da noite, vem aninhar-se junto a mim, como se já me estivesse a explicar o amor sem precisar de palavras.

E, de repente, percebi que não podia continuar a acreditar que não tinha amor dentro de mim quando sentia tanto por aquele pequeno ser.

O problema nunca foi a falta de amor. Foi não saber reconhecê-lo.

Mas, afinal, o que é o amor? Será que só existe quando nos apaixonamos por alguém? Quando queremos partilhar a vida, dormir ao lado de outra pessoa, construir uma família ou imaginar um futuro a dois? Será que o amor precisa de ter um nome, uma relação ou um lugar definido na vida de alguém para ser verdadeiro?

E os nossos amigos? Aqueles que nos conhecem, que nos ouvem, que nos fazem rir quando a vida pesa demasiado e que, por vezes, conseguem aquecer-nos a alma como uma chávena de chá num dia frio. Não é amor querer que lhes corra bem a vida? Não é amor preocuparmo-nos com eles, ficarmos felizes pelas suas conquistas e sentirmos a sua falta quando não estão por perto?

E a nossa família? Será que amamos todos da mesma maneira só porque partilhamos o mesmo sangue? Ou haverá pessoas que, mesmo sendo família, nunca conseguem chegar verdadeiramente até nós, enquanto outras, sem qualquer laço de sangue, nos fazem sentir em casa? Há laços que não se medem pelo apelido, pela proximidade ou pelo tempo que conhecemos alguém.

E como lidamos com a possibilidade de amarmos a nossa mãe de uma maneira diferente daquela que vemos nos outros? Durante muito tempo, também pensei no amor como uma coisa que devia ser demonstrada de determinada forma. Abraçar, dizer “amo-te”, mostrar aquilo que sentimos através de gestos que toda a gente parece reconhecer. Mas descobri que posso amar a minha mãe à minha maneira. Não preciso de a abraçar constantemente nem de lhe dizer que a amo para que esse sentimento exista. O facto de não o demonstrar como outras pessoas demonstram às suas mães não significa que não o sinta.

O meu amor pela minha mãe não precisa de ser igual ao amor que os outros sentem pelas deles. Não tem de passar pelas mesmas palavras, pelos mesmos gestos ou pela mesma proximidade. É o meu amor, construído à minha maneira, com aquilo que sou e com a forma como consigo sentir e demonstrar o que vai cá dentro. E isso não faz dele menos amor.

Que peso tiramos de cima dos ombros quando percebemos que não temos de amar como os outros amam. Quando deixamos de comparar os nossos sentimentos com os de quem nos rodeia e aceitamos que uma coisa pode ser verdadeira mesmo quando não se parece com aquilo que esperávamos.

E aqueles que aparecem na nossa vida sem que estivéssemos à espera? Pessoas que não são família, que não são um amor romântico, que não têm qualquer obrigação de cuidar de nós e que, ainda assim, nos oferecem carinho, tempo, atenção ou uma oportunidade que talvez nem imaginem o quanto significa para nós. Pessoas com quem nasce uma ligação que não sabemos bem onde encaixar, mas que nos desperta uma preocupação genuína e uma vontade de que tudo lhes corra bem.

Não é preciso querermos alguém para nós para lhe querermos bem. Não é preciso esperar alguma coisa em troca para nos preocuparmos com a felicidade de outra pessoa. Há ligações que não precisam de se transformar noutra coisa para terem valor. Há pessoas que passam pela nossa vida e nos deixam qualquer coisa boa, e há outras a quem também queremos deixar alguma coisa boa, simplesmente porque gostamos delas.

E isso também é amor.

É um carinho que nasce da ligação, da gratidão, daquilo que partilhamos e da pessoa que o outro é. É querer que alguém esteja bem, mesmo sabendo que um dia os nossos caminhos podem seguir direcções diferentes. É reconhecer o valor de uma pessoa sem sentir que precisamos de ocupar um lugar específico na vida dela. É desejar-lhe coisas boas sem transformar esse desejo numa expectativa, sem exigir que nos devolva aquilo que sentimos.

Quantas vezes confundimos o amor com aquilo que esperamos receber em troca? Quantas vezes achamos que amar significa ter, ficar, ser escolhido ou ocupar um lugar que mais ninguém pode ocupar? Aprendemos a reconhecer melhor o amor quando ele nos é dirigido do que quando nasce de nós sem pedir nada. Queremos provas de que somos amados, mas nem sempre reconhecemos o amor que somos capazes de oferecer.

E depois há o mar.

Podemos amar o mar? Podemos sentar-nos diante dele, ficar a olhar para as ondas a bater na areia e sentir que, por alguns instantes, não precisamos de resolver absolutamente nada? Há dias em que o mar parece não ter qualquer resposta para as nossas perguntas e, mesmo assim, ficamos ali, a olhar para ele, como se a sua presença fosse suficiente. Não nos conhece, não sabe o que vivemos, não faz ideia do que trazemos connosco. E, ainda assim, há qualquer coisa naquela imensidão que nos faz sentir menos presos ao peso das nossas próprias vidas.

E a música? Como não amar uma melodia que nos toca num lugar que julgávamos inacessível, que nos traz uma memória de volta ou que nos faz sentir uma coisa que não conseguimos explicar por palavras? Como não amar aqueles instantes em que uma música começa a tocar e, sem darmos por isso, já não estamos exactamente no mesmo lugar por dentro?

E a natureza? Como não amar um girassol que se orienta pela luz, uma flor que nasce entre as pedras ou um pequeno riacho que continua a correr mesmo quando o caminho à sua volta parece feito para o impedir? Há qualquer coisa de extraordinário nas coisas que simplesmente existem, que crescem, que se transformam e que continuam o seu caminho.

Como não amar a sensação de ir no carro com a janela aberta, sentir o vento na cara e experimentar aquela liberdade tão simples que, por vezes, nos esquecemos de que existe? Como não amar o cheiro da terra depois da chuva, a frescura do ar numa manhã tranquila ou a luz que entra pela janela e transforma, por alguns minutos, uma divisão banal num lugar onde apetece ficar?

Não precisamos de possuir estas coisas para as amar. Não precisamos que o mar nos pertença, que a música tenha sido feita para nós ou que uma flor saiba que estamos a olhar para ela. Basta estarmos presentes e sermos capazes de sentir. E isso faz-me pensar em quantas outras formas de amor podem existir sem que alguma vez nos tenhamos lembrado de lhes chamar amor.

E os animais? Como não amar o olhar de um ser que confia em nós, que sabe que está protegido e que encontra na nossa presença a tranquilidade de que precisa? Como não sentir alguma coisa quando percebemos que somos responsáveis pelo bem-estar de outro ser e que, apesar de não falarmos a mesma língua, existe entre nós uma ligação verdadeira?

A Kika não me diz que me ama. Não precisa. Há coisas que percebo na forma como se aproxima, na confiança com que adormece junto a mim e na maneira como me inclui no seu pequeno mundo. E eu também não preciso de lhe explicar o que sinto. Demonstro-o quando cuido dela, quando lhe escovo o pêlo, quando me preocupo com o seu bem-estar e quando procuro garantir que nada lhe falta.

Se isto não é amor, então o que é?

Será que o amor tem de ser sempre dirigido a alguém? Será que não pode existir também na forma como olhamos para a vida, nas coisas que nos comovem, naquilo que escolhemos proteger e na atenção que damos ao mundo que nos rodeia?

Durante muito tempo, achei que não tinha amor dentro de mim porque não reagia como imaginava que devia reagir. Esperava sentir uma dor imensa perante o sofrimento dos outros para provar que tinha empatia. Acreditava que, se não me comovia com tudo, então não me comovia verdadeiramente com nada. Mas as pessoas não sentem todas da mesma maneira, e aquilo que não conseguimos reconhecer num determinado momento não deixa necessariamente de existir.

Não estou a dizer que a indiferença perante o sofrimento seja amor, nem que todas as nossas atitudes escondam um sentimento bonito. Estou a dizer que a nossa capacidade de amar não se resume àquilo que sentimos perante uma notícia, uma tragédia ou uma situação que acontece longe de nós. Também se mostra nas nossas escolhas, na forma como tratamos quem está perto, na preocupação que demonstramos e na vontade de fazer o bem quando ninguém nos obriga a isso.

Passamos demasiado tempo à procura de sentimentos extraordinários e esquecemo-nos de olhar para os gestos mais simples. Habituámo-nos a associar o amor a relações, compromissos e expectativas, como se tudo aquilo que fica fora dessas definições não pudesse ser amor. E, por medo de sofrer, por cansaço ou por tudo aquilo que a vida nos vai ensinando a esconder, acabamos por acreditar que sentir de maneira diferente é o mesmo que sentir menos.

Hoje, começo a perceber que o amor não tem de ser sempre igual para ser amor. O que sinto pela Kika não é o que sinto pelos meus amigos. O que sinto pela minha mãe não é o que sinto por alguém que apareceu na minha vida e que, sem ter qualquer obrigação de o fazer, me ofereceu carinho ou me ajudou a ver as coisas de outra maneira. E nenhum desses sentimentos é igual àquilo que sinto quando estou diante do mar ou quando uma música me toca profundamente.

São coisas diferentes. Têm origens diferentes, despertam emoções diferentes e ocupam lugares diferentes dentro de mim. Não precisam de ser comparadas, nem de competir entre si. Não há um único molde no qual tenha de caber tudo aquilo que sentimos.

 

Não é tudo o mesmo amor, mas tudo é amor.

 

Passei anos convencido de que me faltava alguma coisa. Procurava uma definição que me explicasse o amor, sem perceber que a vida já me mostrava tantas maneiras diferentes de o sentir. A descoberta não foi começar a amar de repente. Foi perceber que já amava, mesmo quando não reconhecia aquilo que sentia como amor.

Hoje, já não consigo dizer que não tenho amor dentro de mim. Ainda estou a descobrir coisas sobre aquilo que sinto e sobre a forma como me relaciono com os outros, mas sei que amo. Sei que me preocupo. Sei que há pessoas cujo bem-estar me importa, um pequeno ser de quatro patas que faz parte da minha vida e momentos aparentemente insignificantes que conseguem chegar até mim de uma forma que nem sempre sei explicar.

E tu? Quando pensas no amor, em quem pensas primeiro? Na pessoa por quem te apaixonaste, na tua família, nos teus amigos? E os animais que confiam em ti, as pessoas a quem desejas sinceramente que a vida corra bem, aquelas que te ofereceram algo sem te pedir nada em troca? E o mar, a música, as pequenas coisas que te fazem parar por instantes e sentir que vale a pena estar aqui?

Será que ainda somos capazes de reconhecer o amor quando ele não aparece da forma que esperávamos? Ou estaremos tão ocupados à procura daquilo que nos falta que já nem conseguimos ver aquilo que temos?

Não precisamos de sentir tudo da mesma maneira, nem de saber explicar todos os sentimentos que nos arrepiam a pele ou fazem o coração palpitar. Não precisamos de demonstrar o amor como os outros o demonstram, nem de encontrar sempre as palavras certas para lhe dar um nome. Podemos simplesmente aprender a reconhecer aquilo que sentimos, respeitar a nossa maneira de amar e deixar de medir os nossos sentimentos pela forma como os outros vivem os deles.

Porque o amor não se resume àquilo que alguém representa para nós. Está também naquilo que somos capazes de sentir, naquilo que fazemos sem obrigação, no cuidado que oferecemos e no bem que desejamos aos outros. Está nas pessoas, nos animais, na natureza e nos pequenos instantes que nos lembram de que ainda somos capazes de nos comover.

Durante muito tempo, pensei que não tinha amor dentro de mim. Hoje, percebo que andava à procura dele sem saber que tinha tantas formas de o encontrar.

Não é tudo o mesmo amor. Mas tudo é amor.

❤️

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