Oito anos.
É impossível escrever este número sem sentir um aperto no peito e um arrepio na espinha. São oito anos. Ainda me lembro da primeira vez que te vi, daquela cara pequena e curiosa, como se já soubesses que um dia irias mandar na casa e, de alguma forma, também em mim. Houve um momento em que duvidei se estava preparado para assumir essa responsabilidade. Ainda bem que não voltei atrás. Ainda bem que te escolhi. Ou talvez tenhas sido tu a escolher-me.
Chegaste do norte há oito anos, salva por duas almas bondosas que te deram uma segunda oportunidade. Entraste na minha vida sem fazer barulho, como fazem as coisas mais importantes. Na altura, ninguém podia imaginar que esse pequeno acto de amor iria mudar mais do que uma vida.
Hoje fazes oito anos, mas a verdade é que és tu quem menos importância dá a esta data. Tu não contas os dias, os meses ou os anos. Não pensas no tempo. Não tens medo do futuro. Continuas a ser a mesma princesa que se deita na varanda a apanhar o calor do Verão, enquanto o vento faz dançar os teus pelos compridos, enquanto levantas a cabeça e empurras os bigodes para trás, como se quisesses apanhar todos os cheiros que o vento te traz. Continuas a observar os pássaros pela janela com um fascínio como se fosse o primeiro dia. Continuas a percorrer esta casa com aquela tua pose de princesa, de quem sabe que este é mesmo o teu lugar.
É incrível ver-te todos os dias e perceber como respeitas o teu próprio tempo.
E talvez seja essa uma das maiores coisas que me ensinaste: a pertencer, a estar, a viver o momento sem pensar muito no passado ou no futuro. Simplesmente a ser, a viver.
Ao longo destes oito anos ensinaste-me a amar de uma forma que ninguém me ensinou. Ensinaste-me que o amor verdadeiro não é perfeito. Que também arranha. Que também morde. Que também deixa marcas. E eu não me arrependo de nenhum arranhão nem de nenhuma mordida. Porque cada uma dessas marcas significava apenas uma coisa: estavas aqui. Fazias parte da minha vida. E eu fazia parte da tua.
Cada vez que eu saio de casa ficas à janela à espera que eu volte. E sempre que eu abro a porta, tenho-te à minha espera, como se achasses que eu te abandonei. A verdade é que quem tem medo de ser abandonado sou eu. Irónico, não é? Como vivemos os dois com medo de nos perdermos.
Há memórias que guardarei para sempre. As noites em que nos deitamos na cama e conseguimos ver a lua cheia ao fundo. E tu ali, ao meu lado, com esses olhos azuis impossíveis, a olhar para mim como se soubesses todos os segredos do mundo. Como se compreendesses coisas que eu próprio nunca consegui explicar. Nunca saberei ao certo quanto entendias das minhas dores, dos meus medos ou das batalhas que travava dentro de mim. Mas houve demasiados momentos em que me olhaste como se soubesses exactamente onde a ferida estava. Demasiados momentos em que apareceste ao meu lado sem eu te chamar. Demasiadas coincidências para acreditar que não sentias nada.
Talvez nunca tenhas sabido o que se passava dentro de mim. Ou talvez soubesses mais do que alguma vez vou compreender.
Porque houve dias em que o mundo parecia pesado demais. Dias em que a escuridão fazia mais barulho do que a esperança. Dias em que eu já não sabia muito bem como continuar. E, de alguma forma que nunca conseguirei explicar, estiveste lá. Às vezes bastava ver-te a dormir tranquila ao sol. Às vezes bastava ouvir os teus passos pela casa. Às vezes bastava saber que existias. E isso era suficiente para me agarrar a mais um dia.
Ao fim deste tempo, olho para a tua vida e para a nossa história, e continuo sem compreender como alguém poderia desejar-te mal. Como alguém poderia olhar para um ser tão puro e sentir inveja, ressentimento ou maldade. Mas aprendi que a luz incomoda algumas pessoas. E tu sempre tiveste uma luz muito própria. Ainda assim, acredito que a tua missão era maior do que qualquer gesto menos bonito que tenha cruzado o teu caminho. Porque, contra todas as probabilidades, continuaste aqui. Como se houvesse algo mais forte a proteger-te. Como se soubesses que ainda tinhas muito para fazer na minha vida.
E fizeste.
Transformaste uma casa num lar. Transformaste silêncios em companhia. Transformaste dias comuns em memórias que guardarei para sempre. Há momentos em que um simples olhar teu diz mais do que dezenas de palavras ditas por outras pessoas. Há um conforto na tua presença que nunca encontrei em mais lado nenhum.
Por isso hoje não celebro apenas o teu aniversário. Celebro cada manhã em que te vi acordar. Cada noite em que adormeceste perto de mim. Cada regresso a casa em que me esperaste à porta. Cada raio de sol que partilhaste comigo. Cada momento em que me lembraste que ainda existia beleza neste mundo.
São oito anos, Kika.
O único que sente o peso desse número sou eu.
Tu continuas apenas a ser tu. A perseguir pássaros, a dormir ao sol, a contemplar a lua e a viver cada dia com uma serenidade que eu ainda procuro aprender.
E talvez seja exactamente por isso que te amo tanto.
Obrigado por estes oito anos. Obrigado por me protegeres. Obrigado por me ensinares o significado do amor mais puro, mais genuíno e mais leal que alguma vez conheci.
Só sei que estiveste lá. Sempre. E isso mudou tudo.
Hoje o mundo vê uma gata a fazer oito anos.
Eu vejo a razão pela qual a minha vida continuou.
Sabes o que teria sido a minha vida sem ti? Não teria sido.
É a frase mais verdadeira que alguma vez te poderei escrever.
Nada disto te interessa.
Vais ignorar este texto, pedir comida como se estivesses a morrer de fome há três dias e, pouco depois, ir dormir ao sol.
Como sempre.
E, sinceramente, não te queria de outra forma.
Parabéns, princesa do meu lar. ❤️🐾

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