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Nem tudo o que sentes é teu. E isso explica muita coisa.

Nem tudo o que sentes é teu. E isso explica muita coisa.

Sim, é verdade. Nem tudo o que sentes é teu.

Existem pensamentos que parecem teus, mas na verdade não começaram em ti. Há medos que carregas há anos sem saber exactamente de onde vieram. Sentes culpas de coisas que nunca fizeste. Há padrões que se repetem mesmo quando prometes a ti próprio(a) que “desta vez vai ser diferente”. E não é.

E depois há emoções estranhas, pesadas, intensas e que aparecem do nada, sem um motivo claro.

Sentes tristeza em momentos onde supostamente estava tudo bem. Sentes uma pressão constante como se estivesses sempre a reagir a alguma coisa invisível.

A maior parte das pessoas acredita que tudo aquilo que sente nasce dentro delas. Será verdade?

A realidade psicológica humana é muito mais complexa do que isso. Nós absorvemos constantemente emoções, comportamentos, expectativas e tensões externas. Da família, das relações, dos ambientes, das redes sociais, das notícias, dos algoritmos, das pessoas à nossa volta. E o mais curioso é que muitas vezes nem percebemos quando isso acontece. Porquê?

A mente não vive isolada

O ser humano é altamente influenciável. Sempre foi. Precisamos de sentir que pertencemos à sociedade para sobrevivermos emocionalmente. O cérebro procura constantemente validação, aceitação e reconhecimento desde a infância. E isso faz com que absorvamos padrões externos de forma automática.

Repara numa coisa simples: de certeza que já entraste numa sala onde toda a gente estava tensa e começaste a sentir-te também desconfortável sem motivo aparente, certo? Ou já estiveste perfeitamente bem até abrires as redes sociais e, pouco tempo depois, começaste a comparar a tua vida, o teu corpo, o teu progresso de vida ou até a tua felicidade?

Isso não acontece por acaso.

As emoções são altamente contagiosas. Os ambientes onde estamos moldam os nossos estados mentais. As pessoas influenciam mais do que imaginam. E hoje existe uma nova camada mais invasiva e mais invisível: os algoritmos das redes sociais.

Os algoritmos conhecem-te melhor do que pensas

As plataformas digitais vivem da tua atenção. Não é por acaso que elas estão cheias de “conteúdos que podem ser do teu interesse”, ou “conteúdos recomendados”. Tudo isso para que passes o maior tempo possível a olhar para o ecrã. Quanto mais tempo passas a olhar para um ecrã, mais dinheiro geras. E para prender a tua atenção, os algoritmos aprenderam uma coisa muito importante: as emoções fortes prendem as pessoas.

Por isso, tens cada vez mais acesso a conteúdos extremos, polémicos, agressivos, emocionais e viciantes. O objectivo não é informar-te. É manter-te ligado. E isso só acontece quando tu ficas preso naquele scroll infinito de fotografias perfeitas da vida dos outros ou dos reels.

E repara, a única coisa perfeita no meio disto tudo é o algoritmo. Não a vida dos outros, nem a tua. Porque ninguém tem essa tal vida perfeita que mostra nas redes sociais.

Ao fim de algum tempo começas a acreditar que certos estados emocionais são realmente teus, quando muitos desses estados foram apenas estimulados repetidamente até se tornarem um estado constante. E não é a felicidade. Acredita. Pelo contrário.

É a ansiedade, revolta e medo colectivo. Comparação constante com padrões irreais e a sensação constante de insuficiência.

Existem pessoas que vivem completamente exaustas emocionalmente sem perceber que passam horas por dia ligadas a ambientes digitais desenhados precisamente para criar tensão emocional.

Voltamos ao início: nem tudo começa em ti

Existe também outra dimensão, e que acho importante falar dela, porque muitas pessoas sentem, mesmo quando não a conseguem explicar racionalmente: os padrões familiares.

Há famílias inteiras marcadas pelos mesmos medos, os mesmos tipos de relacionamentos, os mesmos bloqueios emocionais, os mesmos ciclos de sofrimento, abandono, culpa, etc.

Pessoas que repetem relações destrutivas semelhantes às dos pais. Filhos que carregam ansiedade que nunca aprenderam conscientemente e que não é propriamente criada neles. Gerações inteiras educadas pelo medo, pela repressão emocional ou na ideia de que sofrer em silêncio é normal.

Em diversas abordagens terapêuticas e psicológicas, incluindo as constelações familiares no sistema sistémico e familiar, acredita-se que herdamos muito mais do que características físicas da nossa linhagem familiar. Herdamos formas de ver o mundo, mecanismos emocionais, crenças profundas e até maneiras de reagir ao amor, ao conflito e à rejeição.

E enquanto ninguém quebrar esses padrões, eles repetem-se. E por vezes duram décadas ou gerações até alguém ter coragem de quebrar os padrões.

A validação tornou-se uma necessidade

Hoje muitas pessoas já não vivem para sentir. Aliás, eu até diria que hoje, já poucos de nós sente verdadeiramente alguma coisa. Vivemos para validar o que sentimos através dos outros.

Posts sem likes suficientes alteram estados emocionais, criam ansiedade e afectam profundamente a auto-estima de muita gente. Mensagens sem resposta ou sem resposta imediata causam muita ansiedade. Uma crítica online consegue destruir o dia inteiro de alguém. E o pior… é que a maioria dessas críticas são feitas por pessoas que nem nos conhecem. E nós acreditamos que aquela crítica é importante para nós e verdadeira.

E isto revela uma coisa importante: muitas emoções modernas já não nascem apenas da experiência real. Nascem da interpretação social dessa experiência.

O problema é que quanto mais dependes da validação externa, menos percebes quem és sem ela. E torna-se preocupante quando passas 24 horas por dia à espera dessa validação externa, porque tu já não te conheces. Tu já só te conheces pela opinião dos outros. E quando isso acontece, tornas-te extremamente vulnerável à influência dos outros.

Então, o que é que é realmente meu?

Olha… talvez esta seja a pergunta mais difícil. Porque quanto mais pensamos sobre isto, mais percebemos que fomos moldados por milhares de coisas que nunca escolhemos de forma consciente.

A humanidade está a ficar doente mentalmente. E talvez o mais assustador seja o facto de isso estar a acontecer de forma lenta, silenciosa e normalizada. Está a ficar doente porque a nossa mente está a mudar por causa dos algoritmos, por causa da exposição constante, diária, hora a fio a conteúdos extremamente sensíveis, violentos, etc.

Mas também existem partes de nós que continuam genuínas. E talvez o verdadeiro desafio seja conseguir distingui-las no meio deste ruído constante de algoritmos, notificações e estímulos digitais.

A educação que recebemos, os medos que observamos e aprendemos a aplicar por repetição, os conteúdos que consumimos diariamente. As pessoas de quem precisaste para te sentires aceite. Os ambientes onde cresceste.

E mesmo agora, enquanto lês isto, provavelmente começaste a observar as tuas emoções, os teus padrões ou pensamentos que nunca tinhas parado realmente para analisar.

Talvez este seja o momento mais desconfortável de todo o artigo: quando percebes que parte daquilo que sempre chamaste “eu”… pode ter sido construída por influências que nunca questionaste.

Ok, mas nem tudo está perdido. Há sempre tempo de começar a tomar consciência e fazer diferente.

O primeiro passo é reparar

Não consegues controlar tudo o que absorves. Mas podes começar a controlar e reparar os estragos. Reparar aquilo que te esgota. Reparar nos conteúdos que alteram o teu estado emocional. Reparar nos padrões que repetes sem perceber. Reparar nas emoções que aparecem sempre nos mesmos contextos.

Porque muitas vezes o problema não é “o que sentes”. É nunca teres parado para perguntar de onde veio aquilo que sentes. E quando finalmente fazes essa pergunta… algumas respostas mudam tudo.

Tomar consciência é muitas vezes o primeiro passo. Mas há padrões tão profundos, tão repetidos e tão enraizados que sozinho nem sempre é fácil perceber de onde vêm.

E é precisamente aí que abordagens como a psicoterapia, a hipnose clínica ou as constelações familiares podem ajudar: não para mudar quem és, mas para perceber aquilo que nunca foi realmente teu.

Porque às vezes o primeiro passo para te encontrares… é perceberes aquilo que andaste anos a carregar sem ser teu.

❤️

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rickyunic

Um projecto com mais de 22 anos, onde apresento e abordo assuntos que me interessam a cada momento da vida. Desde humor, a saúde, passando pela tecnologia, a sexualidade e a espiritualidade. Tudo é válido neste espaço. Conto consigo para passar um bom momento a dois.
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