Chamam-lhe livre-arbítrio
porque a verdade seria demasiado obscena
para pôr num livro de auto-ajuda.
Dizem, livre-arbítrio…
(rio-me)
O livre-arbítrio desaparece rápido
às três da manhã
quando estás a olhar para o tecto
e nem sabes porque continuas vivo.
Dizem que podes escolher.
Que podes amar, sair, ficar, lutar, desistir.
Escolher os amigos, o emprego, a cama onde dormes
e até o inferno onde decides morrer lentamente.
Mas olha o melhor…
Um alcoólico chama-lhe escolha ao primeiro copo.
Um solitário chama-lhe escolha às mensagens que nunca envia.
Um homem destruído chama-lhe destino
às mesmas mulheres que o arrastam para o fundo.
E o mundo inteiro bate palmas a esta coisa
que chamamos de livre-arbítrio.
Foda-se batam palmas com toda a força.
Batam palmas porque o mundo inteiro
adora fingir que controla alguma coisa.
A maior parte das pessoas nem vive.
Só reagem como ratinhos de laboratório.
Como cães treinados pela fome,
necessitados de aprovação,
com medo de acabarem sozinhos
num quarto húmido e a ouvir
a merda do frigorífico a berrar a noite toda.
Chamam-lhe personalidade (às feridas).
Chamam-lhe sonhos (ao marketing que lhes metem nos cornos).
Chamam-lhe liberdade (ao facto de poderem escolher entre duas prisões).
Acho que as pessoas gostam de ser ratinhos de laboratório.
Mas com livre-arbítrio, atenção. Faz toda a diferença.
Podem escolher uma rodinha ou a outra.
E no fim?
No fim somos cadáveres bem vestidos.
Há gente a falar de liberdade
com nódoas de vinho na camisa
e antidepressivos no bolso.
Há o tipo disciplinado.
Dorme quatro horas por noite porque tem medo de pensar.
Há a mulher da energia positiva.
Nem consegue olhar-se ao espelho sem filtros.
Há o gajo fiel que talvez nunca tenha tido oportunidade de trair.
O criminoso que talvez tenha nascido dez ruas mais abaixo
do que o juiz que o irá condenar.
Mas foquem-se no livre-arbítrio.
Talvez exista algures entre um impulso e uma consequência.
Talvez dure meio segundo.
Mas que merda é essa de meio segundo?
Talvez seja apenas aquele instante
miserável em que percebes exactamente
quem és antes de voltar a fazer a mesma merda.
E é isso que nos mata.
Não é o sofrimento.
Nem a decadência.
Nem sequer a solidão.
É a lucidez.
Passaste a vida inteira a chamar “eu” a um labirinto
de cicatrizes, impulsos químicos, abandono, tesão, medo, sobrevivência.
E mesmo assim acordas de manhã.
Sempre à mesma hora.
Porque tens de ir para a rodinha.
Bebes o teu café.
Que te sabe pela vida.
Respondes a umas mensagens.
Porque senão fica mal.
Pagas as contas.
Finges dignidade.
Finges dignidade.
E amanhã voltas para a rodinha.
Viva a liberda…
deixa estar, já todos percebemos.
Já me cansei desta merda toda.
Já nem consigo acabar as ideias
em que supostamente devia acreditar.
Podem apagar as luzes.
Fechar as cortinas.
E dormir na gaiola.
(cuspo sangue e rio-me)
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