🌱 Este cantinho é livre de anúncios. Com apenas 20 cêntimos ajudas a manter o site e causas sociais.

Representação visual de liberdade pessoal, identidade e rejeição de rótulos no amor e nas relações

Sou contra o casamento gay?

Um título provocador. Uma reflexão real sobre amor, rótulos e liberdade individual. O título é provocador de propósito, até desconfortável, mas a verdade é que não tem nada a ver com aquilo que à primeira vista se imagina. É sobre isso que vamos falar: rotular sem conhecer o que está por trás.

Sei que entraste neste artigo por uma de duas razões: para me criticar ou para me apoiar apenas com base no título.

Mas há um problema. Não vais conseguir fazer nenhuma das duas sem antes leres até ao fim.

 

Mas sim, posso já adiantar que sou contra o casamento gay! E não, este artigo não é o que estás a imaginar!

 

O título é provocador de propósito, até desconfortável, mas a verdade é que não tem nada a ver com aquilo que à primeira vista se imagina.

 

É sobre isso que vamos falar: rotular sem conhecer o que está por trás.

Não tenho absolutamente nada contra duas pessoas do mesmo sexo que se amam, tal como não tenho nada contra um homem e uma mulher que decidem partilhar a vida juntos.

 

O problema nunca foi quem ama quem

O que me deixa com questões não é quem ama quem. É tudo o que se construiu e que se constrói à volta do amor. Ou em nome dele. E a forma quase automática como o casamento é visto como o destino dos casais (e já falo dos filhos, por isso então daria um outro artigo).

Aquela coisa do conhecer, pedir em namoro, pedir em casamento e finalmente casar. É uma visão altamente vintage. Mas estará errada? E será que devemos ser contra ou a favor dos casamentos homossexuais?

Vivemos numa sociedade onde o amor é sempre colocado em cima da mesa. Existe quase um manual que parece ter de ser seguido à risca: conhecer, namorar, casar, construir uma vida, cumprir etapas. E quando alguém simplesmente decide sair desse percurso, há uma estranheza no ar, e além disso muitas perguntas:

  • O que será que se passa com eles?
  • Será que têm algum problema?
  • Já estão há 10 anos juntos porque não casam?
  • Será que gostam mesmo um do outro?
  • Será que algum deles tem um defeito?
  • Ah, ele parece ter ar de infiel.
  • Ela tem cara de quem não quer compromissos porque gosta muito de libertinagem.

É como se aquele relacionamento fosse incompleto, falhasse no exame. Como se não obtivesse a validação da sociedade.

E no meio disto tudo, há pessoas a viver relações inteiras, saudáveis, verdadeiras… mas constantemente questionadas. Como se tivessem de justificar uma escolha que, na verdade, só diz respeito a elas.

E esse peso e essa pressão constantes de fora desgastam. Não porque falte algo na relação… mas porque aparecem opiniões onde ela não foi pedida.

Há também um ponto importante que não pode ser ignorado: nem todas as pessoas procuram o mesmo no casamento. Para alguns, é amor. Para outros, é estabilidade, construção, projecto de vida. E isso, por si só, não é errado.

Cada pessoa tem o direito de escolher o que valoriza e como quer viver.

A questão nunca foi essa.

 

Casar é uma escolha… ou uma repetição?

A questão é quando se entra nesse caminho sem consciência, apenas porque parece ser o que “tem de ser”. Quando não é uma escolha, mas uma repetição.

Porque uma escolha consciente, mesmo que não corresponda à ideia mais romântica de amor, continua a ser válida. O problema nunca está na forma. Está na ausência de verdade dentro dela.

E talvez seja aqui que a questão começa: o casamento valida uma relação ou apenas a formaliza?

O debate sobre o casamento, seja ele gay, hetero, tricasal, etc. não é apenas uma questão de orientação ou de escolha. É também uma reflexão sobre validação social, de liberdade individual e a necessidade humana de categorizar relações para as tornar compreensíveis.

Aliás, falando sobre categorizar, a sociedade tem muito essa necessidade quase automática de categorizar, rotular e simplificar. Para tornar tudo mais fácil de compreender.

Mas quando olhamos para isto com alguma distância, percebemos que o problema raramente é o formato. Mas sim a intenção.

Porque há uma diferença enorme entre escolher casar e sentir que se tem de casar, porque é o que está no tal “manual de instruções”.

 

Eu próprio já pensei nisto mais do que uma vez. Não por dúvida sobre o que os outros fazem, mas sobre o porquê de sentirmos tanta necessidade de definir aquilo que nem sequer vivemos.

Já me questionaram, inclusive, se eu tinha algum defeito simplesmente por não estar a seguir o “manual de instruções da sociedade”.

E isso pesa. Porque, no fundo, só queres viver a tua vida livremente, sem catalogar, sem seguir guiões, sem corresponder a expectativas… sem ter de viver o que os outros esperam de ti.

 

E isto aplica-se a todos. Homossexuais, heterossexuais, transgénero, tricasais etc.

 

Relações sem casamento também são completas

Não posso generalizar, é um facto, mas, eu já vi relações sem casamento que são inteiras, vivas, conscientes, com sentimento, com compromisso, com lealdade. E já vi casamentos que existem apenas por hábito, para manter as aparências, por pressão e expectativa da sociedade, dos pais, dos amigos…

Um papel assinado nunca deu profundidade, verdade ou amor verdadeiro a quem não tinha. Nunca criou verdade onde ela não existia.

Mas há aqui outra camada que temos de discutir e que ainda é mais desconfortável nesta conversa.

 

A necessidade de rotular tudo

A humanidade tem uma tendência quase automática para tentar definir e catalogar tudo. Homem ou mulher. Casado ou solteiro. Normal ou diferente. Como se só conseguíssemos lidar com aquilo que conseguimos encaixar numa palavra simples. E quando algo foge a esse esquema, instala-se o desconforto.

E perante o desconforto, muita gente não tenta compreender. Tenta reduzir. E aí sim, muitas vezes nasce o desrespeito pelas escolhas do outro, as críticas, as posições de contra ou a favor.

Vê-se isso em situações onde o mínimo exigido seria respeito. Porque no fim, nós não precisamos aceitar as escolhas do outro, apenas respeitar, até porque no fundo não temos mesmo nada a ver com as escolhas dos outros.

Pessoas em processo de transição, por exemplo, são frequentemente reduzidas a detalhes físicos, como se a sua identidade pudesse ser anulada por aquilo que ainda não corresponde a uma expectativa externa. Como se alguém tivesse autoridade para decidir o que o outro “é”, apenas porque precisa de uma resposta simples. Não existem respostas simples. As sociedades, a humanidade mudou imenso nos últimos anos. Hoje, cada um de nós já não é simples. Já não é preto ou branco. Já não é hetero ou gay.

Hoje já não cabemos em definições e rótulos simples. E isso ainda cria mais desconforto. Mas temos esse direito. O direito à liberdade. Porque a liberdade de cada um de nós não interfere com a liberdade de ser do outro. E está tudo bem.

Mas isso não é sobre o outro.

É sobre a incapacidade de lidar com o que não é simples.

Porque o rótulo não serve para compreender. Serve para tranquilizar. Serve para evitar o desconforto de aceitar que existem realidades fora daquilo que conhecemos. E isso tem um custo real.

É vivido por quem é constantemente questionado, reduzido, invalidado. Por quem já está num processo interno exigente e ainda tem de carregar o peso de uma sociedade que, apesar de se dizer evoluída, continua muitas vezes presa à necessidade de definir tudo para se sentir segura.

E no meio disto tudo surge outra pergunta inevitável: as pessoas têm direito à sua opinião?

Claro que sim e isso nunca deve ser posto em causa, porque, lá está, somos livres. Todos nós.

Cada pessoa tem direito à sua visão, aos seus valores, às suas crenças. Há quem seja a favor, há quem seja contra, há quem simplesmente não se identifique. Isso faz parte da liberdade individual.

Mas ter uma opinião não significa ter um lugar na vida do outro.

Porque uma coisa é pensar. Outra é achar que esse pensamento deve influenciar a forma como outra pessoa vive, ama ou existe. Uma coisa é ter uma visão. Outra é usá-la como medida para a vida alheia.

A tua opinião é tua enquanto te define a ti. No momento em que tentas usá-la para definir o outro… deixa de ser liberdade.

Nem tudo o que faz sentido para ti precisa de fazer sentido para outra pessoa. Nem tudo o que não compreendes precisa de ser corrigido, nem significa que esteja errado.

Às vezes, é só uma questão de não perceberes. E está tudo bem quando não percebes. Porque hoje, somos livres, e numa sociedade livre cabe tantas formas de vida, tantas formas de ser, de amar… que na verdade nós não precisamos de perceber. Precisamos sim, de aprender a respeitar.

E no fundo, esta conversa/artigo nunca foi sobre casamento. Nunca foi sobre orientação sexual. Nunca foi sequer sobre rótulos, nem casamentos.

Foi sempre sobre controlo… e sobre a dificuldade em aceitar que cada pessoa pode viver de forma diferente sem precisar de autorização.

E talvez por isso haja tantas conversas sobre estes temas. Muitas pessoas que são contra, muitas pessoas que são a favor, muitas pessoas que não emitem uma opinião porque isso não ficaria bem. Porque é mais fácil falar da vida dos outros do que olhar para a própria vida.

 

No fundo, nunca foi sobre casamento

No fim, não é o casamento que define nada. Nem o género. Nem o rótulo.

O que define tudo é isto: ou estás a viver a tua vida… ou estás a ocupar o tempo que não sabes viver a analisar a dos outros.

E isso talvez seja a parte mais honesta de todas deste artigo. Quando nos preocupamos demasiado com a vida dos outros, algo está a falhar na nossa.

Porque ninguém verdadeiramente ocupado perde energia a reduzir a existência de outra pessoa a uma opinião.

No fundo, a questão nunca foi o que os outros fazem.

A questão é o vazio que precisa de ser preenchido com isso.

A vossa opinião é válida. Sempre foi.
Mas talvez nem todas as opiniões precisem de ser ditas.
Nem todas precisam de ser aplicadas à vida dos outros.

Porque no fim, não é sobre ter razão.
É sobre saber viver sem precisar de controlar o que não vos pertence.

Porque existe uma coisa chamada liberdade. E é tão bonito quando somos livres, seja na sexualidade, no amor, no modo de vida, no modo de pensamento…

Pessoas livres, e principalmente seguras de si próprias, não precisam de explicar quem são. Nem de justificar como amam. Nem de pedir autorização para existir.

 

E talvez seja mesmo aí que tudo muda: no momento em que deixas de viver em função do que os outros pensam e passas simplesmente a viver de acordo com aquilo que te faz sentido. Casado, solteiro ou junto… mas em verdade contigo próprio.

 

Vivam. A vossa vida. A dos outros não vos pertence.

❤️

Este site é um projecto independente e sem publicidade. Se o que leste hoje te foi útil, considera retribuir com um pequeno gesto de 20 ou 50 cêntimos. Isso ajuda a manter o site no ar e o que sobrar reverte para causas sociais.

Quero fazer um donativo →
rickyunic
rickyunic

Um projecto com mais de 22 anos, onde apresento e abordo assuntos que me interessam a cada momento da vida. Desde humor, a saúde, passando pela tecnologia, a sexualidade e a espiritualidade. Tudo é válido neste espaço. Conto consigo para passar um bom momento a dois.
Peace and Love.
Carpe diem.
Namastê.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *