O mal vence sempre.
E não é porque “Deus” está distraído.
Mas porque os filhos da puta acordam mais cedo.
O homem de Deus enquanto está a tentar perceber se magoou alguém com uma palavra,
o homem do Demo já destruiu três vidas antes do pequeno almoço
e ainda vai ao ginásio mostrar os abdominais.
Sei lá, acho que há alguma coisa
profundamente inútil no bem.
É bonito,
fica bem num poema,
mas no mundo real é carne para cães esfomeados.
Os bons pedem desculpa. Sentem.
Os maus pedem mais.
E depois….
depois há aquela velha mentira
tão gasta como uma prostituta
que no fim o bem triunfa sempre.
Não, não não.
O bem não triunfa sempre.
No fim, o bem está sozinho na merda de um T0
bolorento, escuro
a tentar entender o que falhou.
Já o mal…
dorme ao lado de alguém novo todos os dias
bebe vinho caro como o caraças
pago com mentiras e ainda recebe aplausos
por ter uma “personalidade forte e vincada”.
Hoje a falta de escrúpulos chama-se resiliência,
a manipulação chama-se “networking”.
Só mudamos os nomes para podermos admirar
os monstros sem sentirmos que somos cúmplices.
Às vezes penso que os maus nem são maus.
Só aprenderam cedo demais como o mundo funciona.
A verdade é que as pessoas adoram o mal.
Só não lhe chamam isso.
É a ambição,
o instinto,
o poder,
a assertividade,
o sucesso.
Um canalha qualquer que pisa vinte pessoas
para subir na vida é admirado.
Um homem decente que hesita antes de ferir
é tratado como um fraco.
E talvez seja…
Porque o mundo não foi feito para almas limpas.
Foi feito para predadores.
E os bons são apenas as presas do mal.
Olham para ti com ternura,
com aquele olhar amoroso e brilhante,
enquanto escolhem o sítio exacto
onde te vão abrir ao meio.
Mas ainda assim, acho que o pior
é que o bem continua a acreditar nas pessoas.
Mesmo depois da décima facada.
Mesmo depois de ver o amor
como um matadouro emocional.
O mal nunca tem insónias,
nunca dorme atormentado.
Nunca passa noites a rever conversas,
a sentir culpa,
a perguntar se destruiu alguém
Quem fica a sangrar é que amou de verdade.
O mal lava as mãos,
acende a merda de um cigarro,
muda de cama,
de nome,
de máscara.
E segue em frente.
Enquanto isso,
os bons ficam sentados
convencidos de que podiam ter salvo alguém.
O inferno nunca foi feito para os cruéis.
Os cruéis sabem bem sobreviver nele
porque já trazem o inferno dentro deles.
Quem morre lá são os outros.
Os que chegam lá de coração aberto.
O inferno foi feito para quem sente.
Para quem ainda se atreve a sentir.
A amar, a preocupar-se.
Por isso continuem.
Amanhã acordem cedo outra vez.
Há sempre alguém inocente para esmagar.
O mundo recompensa-vos por isso.
Porque no inferno já estamos.
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