Tenho medo.
Tenho medo, sim.
Daquilo que não compreendo.
E demorei anos a perceber isto.
Sempre fui uma pessoa muito curiosa.
E achei que apenas gostava de analisar pessoas.
Sempre tive muito interesse pela psicologia, pelos comportamos, pelas emoções, pelos padrões. Mas talvez não seja só isso.
Talvez eu precise de compreender.
Porque quando eu não compreendo, sinto-me perdido.
Há pessoas que conseguem aceitar um acontecimento e seguir em frente. Eu não. Preciso de perceber porque aconteceu. Preciso de encontrar a ligação entre a causa e o efeito. E talvez seja por isso que passo tanto tempo dentro da minha cabeça.
A observar.
A analisar.
A desmontar cada conversa.
Cada palavra dita e em que momento.
Cada gesto.
Cada silêncio.
Se caiu uma lágrima.
Se gerou choque.
Como se estivesse constantemente a tentar resolver um enigma.
Como se a vida fosse um puzzle e eu me recusasse a aceitar que faltam peças, ou que elas não encaixam umas nas outras.
Porque a verdade é esta:
Quando não encontro um sentido, entro em conflito.
Luto contra os acontecimentos.
Luto contra as decisões dos outros.
Luto contra aquilo que não consigo prever.
Luto contra aquilo que não escolhi.
Luto contra aquilo que me surpreende.
E durante muito tempo achei que estava a lutar contra o mundo.
Hoje compreendo que estou a lutar contra uma coisa muito mais simples.
A incapacidade de controlar.
Talvez seja isso que tenho evitado durante toda a vida. Deixar-me simplesmente ir, voar com o vento, ir com a maré, sem saber exactamente para onde me vão levar.
Chama-se controlo.
Não porque queira controlar as pessoas.
Não porque queira controlar a vida.
Porque tive medo de viver.
Porque tenho medo daquilo que acontece dentro de mim quando deixo de conseguir prever o que vem a seguir. E quando falho nos meus cálculos matemáticos sinto-me uma nulidade. Porque passei anos a acreditar que, se fosse suficientemente inteligente, conseguiria antecipar a vida. E que, ao antecipá-la, conseguiria proteger-me do sofrimento.
Por isso preciso de planear tudo ao milímetro.
Preciso imaginar os piores cenários.
Preciso antecipar conversas.
Por isso ensaio acontecimentos que ainda nem sequer aconteceram. O meu problema não é tanto viver no passado. É mais viver constantemente no futuro que até me esqueço que existe um Eu no presente.
Como se ao pensar nisso tudo vezes suficientes conseguisse impedir acontecimentos inesperados…
Mas a vida nunca assinou esse acordo comigo, e confesso, por mais que tente controlar tudo, parece que a vida me testa cada vez mais a permitir-me perder o controlo. Porque ela continua a enviar-me imprevistos…
Continua a destruir-me os meus planos feitos com régua e esquadro.
Continua a apresentar pessoas que não fazem sentido.
Continua a fazer perguntar para as quais não tenho resposta.
E acho que isso me deixa esgotado.
Não a vida.
A resistência.
A possibilidade de não saber.
A possibilidade de não compreender.
A possibilidade de não controlar.
A possibilidade de estar vivo num mundo que não compreendo, não tem respostas para mim, nem me deve explicações.
E a verdade é que depois de estar aqui nu perante todos vocês, nem sequer sei escrever um final bonito para isto…
Há uma parte de mim que continua a procurar uma conclusão. Uma lição. Uma resposta. Qualquer coisa que arrume todas estas peças.
Mas esse é precisamente o problema.
Nem tudo precisa/pode ser compreendido.
E o que mais me assusta, ao escrever isto, é que não consigo acreditar totalmente na frase anterior…
Só sei que seria muito mais feliz se me deixasse ir. Simplesmente. Voar ao sabor do vento. Da maré.
O que perdi por passar a vida inteira a tentar compreender, prever e controlar tudo?
Perdi dias. Perdi momentos. Perdi a capacidade de estar inteiro em muitos lugares onde o meu corpo esteve, mas a minha mente não.
Passei anos a sofrer por acontecimentos que nunca chegaram.
A ensaiar tragédias que nunca aconteceram. A preparar-me para perdas que nunca vieram. A carregar pesos que só existiam na minha imaginação.
E o mais difícil de admitir é que nada disso me protegeu.
Nada.
As dores que tinham de chegar chegaram. As perdas que tinham de acontecer aconteceram. Os imprevistos encontraram-me na mesma. A vida entrou pela porta que eu julgava ter trancado.
E eu fiquei ali. Cansado. A mutilar-me mentalmente por cada coisa que fugiu ao padrão.
Com os bolsos cheios de mapas de sítios onde nunca estive. E com muito menos vida vivida do que aquela que poderia ter vivido.
Mas hoje estou a pagar o preço dessa tentativa de controlo constante. E esta verdade talvez seja ainda mais dura do que eu gostava de admitir.
Como se tivesse passado 34 anos a viver em mundos paralelos, mas sem os viver verdadeiramente. A tentar apanhar a vida desprevenida, quando era ela que me apanhava desprevenido.
Foram 12.418 dias em que perdi manhãs, abraços, momentos com quem amava, noites a olhar para o brilho do céu… porque estava ocupado a calcular o dia seguinte.
E o mais irónico é que nenhum desses cálculos me salvou.
Nenhum.
Hoje olho para trás e vejo uma vida inteira passada a preparar-me para viver.
Mas a vida já estava a acontecer enquanto eu fazia contas.
E de repente…
(suspiro)
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