Ainda me lembro do número de telefone de casa da minha avó Laurinda.
Já se passaram 9 anos desde que ela voou para as estrelas e, no meio de tantas coisas que fui esquecendo, há esse número que o tempo não apagou.
Durante muitos anos, ligar para aquele número era uma coisa simples. Eu sabia que ela estava lá. Ela sabia quem eu era. E havia qualquer coisa na voz dela que me sabia a casa por alguns minutos.
Ela tinha sempre um amor maternal por mim. E fazia-me sentir em casa.
Mesmo estando longe.
E um mês depois, foi o meu avô Manuel que voou para junto da Lua. Fui lá para me despedir dele. A vida levou-me ao chão, em tão poucos dias. Depois disso nunca mais voltei.
Às vezes penso que há lugares onde deixamos de conseguir ir porque não sabemos o que vamos encontrar quando lá chegarmos. Mas também sei que não devemos forçar. Há ausências que transformam por completo os sítios. Lugares onde as coisas continuam no mesmo sítio dentro de nós, mesmo quando já não existem por fora… como se fosse possível atravessar 9 anos apenas porque ainda me lembro daquela sequência de números.
Imagino-a a atender.
Imagino a felicidade em ouvir o neto.
Talvez disséssemos qualquer coisa simples.
Talvez eu lhe contasse coisas que aconteceram entretanto.
E talvez, por alguns minutos, eu voltasse a ser apenas o neto que lhe telefonava.
Sem os anos que passaram.
Sem a distância.
Sem tudo aquilo que aconteceu depois.
Só eu.
E a minha avó do outro lado do telefone.
Às vezes tenho saudades deles.
E da pessoa que eu era naquela altura.
Mas, depois de atravessar tanto deserto, alguma coisa em mim voltou a encontrar esse rapaz.
Não exactamente o mesmo.
Talvez mais inteiro.
Mais livre.
Mais consciente de quem sou e daquilo que quero guardar comigo.
E hoje, ao ouvir uma música, lembrei-me dela.
E, por instantes, voltei a pensar naquele número.
Ainda o sei de cor.
É como se tivéssemos ainda uma linha telefónica aberta no coração, entre mim e as estrelas.
Mas sei que do outro lado ela já não vai atender.
Gosto de imaginar que, se fosse possível, ela atendia.
E que ficava feliz por ser eu.
Porque eu não precisava de ser outra pessoa.
Era só eu, o neto dela.
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