Há momentos em que percebemos que estamos cansados de segurar uma coisa que já não nos segura a nós. Não acontece necessariamente num grande momento, nem depois de uma discussão violenta. Às vezes acontece numa conversa banal, numa resposta que não chega, numa explicação que volta a não explicar nada. Às vezes acordamos e simplesmente tomamos consciência da verdade, de que não podemos continuar a segurar uma mentira. E, de repente, damos por nós a olhar para aquela pessoa e a pensar que já não sabemos o que estamos a tentar salvar.
Durante muito tempo, talvez por medo, fui ficando agarrado ao corrimão. Não porque não soubesse que havia coisas erradas, mas porque ainda acreditava que podia existir uma explicação capaz de pôr tudo no lugar. E porque, de certa forma, o corrimão é um lugar confortável para nos agarrarmos enquanto não queremos ver as coisas como elas são. É quase como um ombro amigo. Quando gostamos de alguém, fazemos coisas estranhas para conseguir continuar a acreditar. Perdoamos antes de nos pedirem perdão. Damos uma, duas, três oportunidades. Explicamos aquilo que nos magoou de dez maneiras diferentes, como se, se encontrássemos finalmente as palavras certas, a outra pessoa fosse capaz de compreender. E esperamos. Esperamos pela verdade, pelo reconhecimento, por aquele momento em que alguém olha para nós e diz simplesmente: sim, fiz isto, menti-te, escondi-te isto, percebo porque é que te magoei. E talvez nem precisemos que a pessoa compreenda exactamente como ou porque nos magoou. Às vezes bastava que reconhecesse que aconteceu.
Mas também passamos demasiado tempo à espera de um pedido de desculpa, de um reconhecimento, de qualquer coisa que nos permita acreditar que aquilo que sentimos também teve importância para quem estava do outro lado. E a verdade é que, enquanto esperamos por essa frase, estamos a entregar a outra pessoa o poder de decidir quando é que a nossa história pode terminar.
Talvez seja isso que mais custa numa mentira. Não é apenas descobrir que uma coisa não era como pensávamos. É olhar para trás e perceber que, muito antes de termos certezas, já havia qualquer coisa dentro de nós que não estava tranquila. Havia coisas que não encaixavam, comportamentos que não combinavam com palavras, momentos em que alguma coisa dentro de mim dizia que devia prestar atenção. Eu sentia. Pressentia. Intuía. Durante muito tempo soube que havia qualquer coisa que não estava certa, mas não queria ver. Ou talvez quisesse acreditar mais naquilo que me diziam do que naquilo que eu próprio sentia. E essa é uma das coisas mais difíceis de admitir: por vezes não somos enganados apenas porque alguém nos mente. Também nos enganamos a nós próprios quando escolhemos acreditar naquilo que desejamos que seja verdade.
Não queria viver numa relação em que tivesse de escolher entre acreditar na minha intuição ou acreditar na pessoa que estava comigo. Queria poder ouvir uma coisa e aceitá-la. Queria não precisar de procurar sinais, juntar peças, comparar palavras com comportamentos. Queria simplesmente confiar. E talvez tenha sido precisamente essa vontade de confiar que me fez permanecer mais tempo do que devia. Porque uma coisa é desconfiar de alguém e outra completamente diferente é ter a coragem de aceitar aquilo que já sentimos antes de termos todas as provas.
Quando finalmente deixamos de confiar, há qualquer coisa que muda para sempre. Mesmo que ainda exista amor. Mesmo que ainda exista desejo. Mesmo que ainda existam memórias que nos fazem sorrir e aquela vontade absurda de voltar atrás e recuperar alguns momentos. É possível sentir tudo isso e, ainda assim, saber que não queremos continuar. Acho que foi isso que mais tive de aprender. O fim de uma relação não precisa de acontecer porque deixámos de gostar. Às vezes acontece precisamente porque gostávamos e já não conseguíamos continuar a aceitar aquilo que estava a acontecer dentro dela. Porque chega uma altura em que permanecer começa a exigir demasiado de nós e percebemos que, para continuar ao lado de alguém, estamos a começar a afastar-nos de nós próprios.
Talvez por isso as três oportunidades tenham tido um significado tão grande. Não foram três tentativas de salvar uma relação por teimosia. Foram três momentos em que ainda existia espaço para fazer diferente. Três vezes em que escolhi acreditar que aquilo que me tinha magoado podia ser compreendido, que aquilo que tinha sido quebrado podia ser reparado, que a verdade podia finalmente ocupar o lugar que a mentira tinha ocupado. Na primeira oportunidade ainda existe muita esperança. Na segunda já existe medo. Na terceira já existe consciência. E quando chegamos a esse ponto, já não estamos a pedir perfeição a ninguém. Estamos apenas a pedir aquilo que qualquer relação precisa para sobreviver: verdade, respeito e vontade de fazer diferente.
Depois da terceira oportunidade, alguma coisa muda. Já não é uma questão de não ter tentado. Já não é uma questão de não ter explicado. Já não é uma questão de não ter dado espaço para a outra pessoa escolher. Eu dei esse espaço. E talvez seja precisamente isso que me permite agora ir embora sem sentir que desisti demasiado cedo. Não fui embora porque não amava. Fui embora porque percebi que continuar a amar daquela forma me estava a custar demasiado.
E depois há a parte mais difícil: perceber que talvez nunca venha o pedido de desculpa que esperávamos. Talvez a outra pessoa nunca consiga dizer exactamente aquilo que precisamos de ouvir. Talvez prefira dizer que fizemos drama, que exagerámos, que interpretámos mal, que já estávamos fartos, que as coisas não eram assim tão importantes, qualquer coisa que torne a história mais fácil de suportar. Porque é muito mais confortável acreditar que alguém nos deixou porque deixou de gostar de nós do que aceitar que as nossas próprias escolhas também podem ter alguma coisa a ver com isso. E talvez eu também tenha procurado durante demasiado tempo uma explicação que me permitisse não fechar completamente a porta.
Mas há uma altura em que percebemos que continuar à espera também é uma escolha. E eu já não quero escolher esperar.
Não sei exactamente o que existe depois disto. Sei apenas que existe qualquer coisa. Há vida depois da pessoa que julgávamos que ficaria. Há dias normais, noites estranhas, momentos em que sentimos falta e outros em que nos esquecemos completamente. Há dias em que a decisão parece absolutamente certa e outros em que uma memória qualquer aparece e nos faz questionar tudo durante alguns minutos. Há coisas que ainda preciso de compreender, talvez de levar para dentro de uma sala e olhar para elas com alguém que me ajude a perceber de onde vieram. Porque nem tudo o que sentimos começou naquela pessoa. Às vezes alguém apenas encontra uma ferida que já estava lá.
Mas já não quero voltar atrás para descobrir se desta vez a pessoa vai finalmente dizer a verdade. Já não quero procurar a explicação que faltou, a frase que nunca foi dita ou o pedido de desculpa que talvez nunca chegue. Porque neste momento eu já sei o suficiente. E talvez essa seja a verdadeira liberdade: perceber que não preciso que alguém me dê aquilo que nunca conseguiu dar para poder seguir em frente.
Fechar um ciclo não é deixar de sentir. Pelo contrário. Há ciclos que duraram tantos anos que não se esquecem de um dia para o outro. Há momentos que viverão para sempre na nossa memória. Há coisas bonitas que não deixam de ser bonitas só porque a história acabou mal. Há pessoas que amámos verdadeiramente e que, apesar de tudo, continuam a ter um lugar na nossa memória. Não precisamos de apagar isso para conseguir partir. Também não precisamos de transformar alguém num monstro para justificar a nossa saída. Às vezes basta aceitar que duas pessoas podem ter vivido coisas reais e, ainda assim, chegar a um lugar onde já não conseguem continuar juntas.
Talvez seja simplesmente largar a mão do corrimão. Não porque deixámos de ter medo, mas porque percebemos que continuar agarrados também nos estava a fazer cair. E talvez seguir em frente não seja esquecer, nem deixar de amar, nem fingir que nada aconteceu. Talvez seja conseguir levar connosco aquilo que foi bonito, aprender com aquilo que doeu e deixar para trás aquilo que já não nos faz bem.
Porque podemos continuar a amar alguém e, mesmo assim, escolher seguir em frente. Podemos sentir saudades e não voltar. Podemos guardar alguém dentro de nós sem continuar a viver à espera dessa pessoa. Podemos desejar-lhe bem sem voltar a ocupar o lugar que nos fez mal. E talvez o amor também possa ter essa forma. Talvez amar não seja sempre ficar. Às vezes amar é saber que já não podemos continuar e ter coragem para abrir a mão.
Durante muito tempo achei que largar significava perder. Hoje começo a perceber que talvez seja o contrário. Talvez largar seja devolver a liberdade a ambos. À outra pessoa, para ser aquilo que escolheu ser. E a mim, para voltar a ser aquilo que fui deixando para trás enquanto tentava salvar alguma coisa que já não conseguia salvar. Por isso, liberto-te amando-te. Mas escolho amar-me primeiro.
Não sei onde vou pôr os pés a seguir. E, pela primeira vez, não sinto que precise de saber. Talvez a vida tenha coisas preparadas que ainda não consigo ver. Talvez, quando finalmente deixamos espaço para o que nos faz bem, o universo encontre uma maneira de nos surpreender. Talvez existam pessoas que ainda não conhecemos, lugares onde ainda não estivemos, conversas que ainda não tivemos, momentos que hoje nem conseguimos imaginar. Talvez exista uma versão de nós próprios à nossa espera do outro lado deste medo, mais leve, mais inteira e finalmente livre. Talvez ainda haja pessoas que nos vão ensinar outras formas de amar, de confiar, de crescer. Pessoas que nos mostrem que o amor não precisa de ser uma coisa que nos prende, que nos faz duvidar ou que nos obriga a perder partes de nós para poder existir. Talvez, um dia, encontremos um amor que saiba ser livre connosco.
E talvez seja esse o verdadeiro sentido de fechar um ciclo. Não é dizer que nada mais pode acontecer. É aceitar que aquilo que tinha de acontecer já aconteceu e permitir que o que vem a seguir possa encontrar espaço para chegar.
Por isso, eu largo a mão do corrimão. Não porque já saiba onde vou chegar, mas porque já não quero passar a vida inteira agarrado ao lugar onde tive medo de cair.
Vou seguir em frente.
Levo comigo o que foi verdadeiro, deixo para trás aquilo que me fez mal e guardo no coração aquilo que, apesar de tudo, um dia foi amor.
O resto, deixo à vida.
Porque talvez o amor também seja isto: saber quando ficar, saber quando partir e, mesmo depois de partir, não precisar de transformar o que sentimos em ódio para conseguirmos continuar.
E talvez, quando finalmente temos as mãos livres, a vida consiga colocar nelas alguma coisa que nunca conseguiríamos receber enquanto estivéssemos agarrados.
Talvez ela ainda tenha maneira de nos surpreender.
Para sempre,
e mais além,
do Ricky.
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