Há dias e músicas…
Há músicas que me fazem perceber que perdi demasiado tempo a tentar sobreviver a várias coisas.
Tóxicas. Más. Daquelas que nos ferem devagarinho por dentro. Como uma faca espetada no peito que nos vai dilacerando. E o sangue vai saindo, gota a gota, até não aguentarmos mais. Até cairmos no chão, sem força.
Já não vivemos.
Só conseguimos sobreviver.
Tentamos perceber antes de sentir…
Procuramos a causa antes de aceitar aquela ferida. Tentamos perceber cada pensamento, cada sentimento da alma, cada silêncio, cada mudança, como se em algum lugar estivesse escondida a explicação para tudo isso.
Aquela que nos permitiria descansar para sempre.
Mas cansamo-nos.
Cansamo-nos de tentar encontrar um sentido para tudo.
Para um vento na cara.
Para uma nuvem com forma de coração.
Para um suspiro de alguém que dorme ao nosso lado.
Há coisas que acontecem…
Há coisas que aconteceram…
Só não consigo explicá-las.
Apesar de continuarem a doer, mesmo que já tenha passado tanto tempo.
Não deixam simplesmente de fazer parte de nós só porque não conseguimos falar delas sem sentir profundamente.
Como uma música que nos toca em sítios que nunca imaginávamos que existiam.
Eu continuo a sentir.
A lembrar-me.
Há dias em que uma música qualquer, completamente ao acaso, ou talvez seja um anjo que nos envia um sinal, abre dentro de nós uma porta que estava fechada há muito tempo.
Uma música.
Uma pessoa.
Uma memória.
Um cheiro.
Uma fotografia.
Uma nota musical.
Uma frase…
Ou uma noite em que a casa está demasiado silenciosa, como se fosse um filme com aquela música de fundo que nos transporta, que nos mata por dentro, que nos faz renascer.
Que nos toca bem lá dentro.
Sei lá eu onde…
Mas toca num sítio especial.
E, de repente, nasce qualquer coisa.
É estranho.
Porque algumas versões de nós nunca desapareceram.
Ficaram algures, bem arrumadinhas.
Muitas vezes nem fazem barulho.
Mas basta uma música para nos desarmar.
Para nos fazer olhar mais fundo.
E eu tenho tantas versões dentro de mim…
A pessoa que tinha medo.
A que acreditava em tudo.
A que desconfiava de todos.
A que não se permitia.
A que dava demais.
A que aceitava demais.
A que se foi embora.
A que ficou.
A que ainda espera.
A que já não espera por ninguém.
E todas elas sou eu.
E no final…
Bem, no final ficamos a sentir aquelas notas musicais dentro do peito.
A morrer e a renascer a cada nota.
A rir e a chorar com a melodia.
A voar para onde a música nos leva…
Mas não voamos sós.
Levamos sempre connosco o anjo da música.
Porque, no fundo, há sempre alguma coisa que permanece em nós, mesmo quando a música acaba.
Eu.
Eu, que ainda estou aqui.
Eu só quero sentir.
Só quero voar.
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