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Quando o sexo se torna uma forma de procurar validação

Sentir que alguém nos deseja pode aumentar a confiança, mas o que acontece quando precisamos dessa atenção para nos sentirmos bem connosco próprios? Uma reflexão sobre sexo, autoestima e a diferença entre procurar prazer e procurar validação.

Há uma diferença entre querer ter sexo porque sentimos desejo e querer ter sexo porque precisamos de sentir que alguém nos deseja. Por fora, as duas situações podem parecer exactamente iguais. Existe atracção, há um encontro, acontece alguma coisa entre duas pessoas. Mas, por dentro, a experiência pode ter significados muito diferentes.

Para algumas pessoas, sentir-se desejadas é uma parte natural e agradável da sexualidade. Saber que despertamos interesse, que alguém gosta do nosso corpo ou que existe vontade de estar connosco pode ser gratificante. Não há nada de errado nisso. O problema começa quando a atenção sexual deixa de ser apenas algo de que gostamos e passa a ser algo de que precisamos para nos sentirmos bem connosco próprios.

Já alguma vez sentiste que precisavas de saber se alguém ainda te desejava, mesmo quando nem tinhas a certeza de querer estar com essa pessoa? Ou que a atenção de alguém te fazia sentir mais confiante, mas a ausência dessa atenção te levava imediatamente a questionar o teu próprio valor?

Estas experiências não são necessariamente sinal de um problema. Mas podem ser um ponto de partida para percebermos até que ponto a nossa autoestima depende da forma como os outros nos olham.

 

Ser desejado faz-nos sentir bem. Mas porquê?

A sexualidade não acontece isolada das nossas emoções. A forma como vivemos o desejo pode estar relacionada com a imagem que temos do nosso corpo, com as experiências que tivemos nas relações, com a educação que recebemos e com a importância que atribuímos à opinião dos outros.

Sentir que alguém nos deseja pode funcionar como uma confirmação de que somos atraentes, interessantes ou capazes de despertar interesse. Quando recebemos essa atenção, podemos sentir-nos mais confiantes. Um elogio, uma mensagem inesperada ou a iniciativa de alguém que nos procura podem melhorar o nosso humor e fazer-nos olhar para nós de outra maneira.

Isto é particularmente compreensível numa sociedade em que a aparência física ocupa tanto espaço. Somos constantemente confrontados com imagens de corpos idealizados, padrões de beleza e ideias sobre aquilo que torna alguém sexualmente atraente. Mesmo quando sabemos que essas imagens não representam a realidade de todas as pessoas, é difícil não sermos influenciados por elas.

As aplicações de encontros podem intensificar esta dinâmica. Um perfil recebe mensagens e outro não. Uma fotografia desperta interesse, outra passa despercebida. Os sinais de atenção tornam-se visíveis e fáceis de comparar, criando a sensação de que o nosso valor pode ser medido pela quantidade de pessoas que nos procuram.

Mas o interesse sexual de outra pessoa não é uma avaliação objectiva do nosso valor. Depende de preferências, circunstâncias, disponibilidade, atracção e inúmeros factores que não controlamos.

Podemos ser desejados por alguém e não despertar interesse noutra pessoa. Podemos receber muita atenção numa determinada fase da vida e pouca noutra. Nada disso significa que tenhamos ficado mais ou menos valiosos enquanto pessoas.

O problema é que, quando precisamos demasiado dessa confirmação externa, podemos começar a interpretar cada ausência de interesse como uma rejeição pessoal.

 

Quando já não procuramos apenas prazer

Imagina alguém que recebe uma mensagem de uma pessoa com quem já teve relações sexuais. A mensagem desperta entusiasmo, não necessariamente porque exista vontade de repetir o encontro, mas porque confirma que continua a ser desejado.

Talvez essa pessoa nem tenha grande interesse numa relação com quem lhe escreveu. Talvez saiba que não existe compatibilidade ou que não gostaria de partilhar a vida com ela. Ainda assim, a atenção recebida tem um efeito imediato: durante algum tempo, sente-se mais atraente, mais confiante ou mais importante.

Quando a mensagem deixa de chegar, o efeito desaparece. Surge a vontade de voltar a receber atenção, de encontrar alguém que demonstre interesse ou de confirmar que continua a despertar desejo.

É possível entrar neste ciclo sem nos apercebermos do que está a acontecer. Procuramos encontros, trocamos mensagens, recebemos elogios e sentimos uma satisfação momentânea. Depois, quando essa atenção termina, voltamos a sentir a mesma insegurança que existia antes.

Não significa que todos os encontros tenham de esconder uma necessidade emocional. Uma pessoa pode gostar genuinamente de sexo casual, procurar diferentes parceiros e sentir-se perfeitamente confortável com as suas escolhas. Também é possível desfrutar da validação que acompanha o desejo sem que isso represente um problema.

A diferença está na liberdade com que fazemos essas escolhas.

Se procuramos alguém porque nos apetece ter sexo, a experiência pode ser satisfatória por aquilo que é. Se sentimos que precisamos de encontrar alguém para deixar de nos sentir indesejáveis, a situação muda. O encontro pode continuar a proporcionar prazer, mas passa também a carregar a expectativa de resolver uma insegurança que talvez não tenha origem na nossa vida sexual.

E nenhuma quantidade de atenção consegue garantir que essa insegurança desapareça definitivamente.

 

O que acontece quando confundimos desejo com valor pessoal?

Uma das dificuldades de depender da validação sexual é que começamos a atribuir às outras pessoas um poder excessivo sobre a forma como nos sentimos connosco próprios.

Se alguém nos deseja, sentimo-nos atraentes. Se alguém perde o interesse, questionamos o nosso corpo, a nossa personalidade ou aquilo que fizemos de errado. Se uma pessoa deixa de responder, podemos sentir necessidade de encontrar outra que nos devolva a confiança que perdemos.

A nossa percepção de nós próprios fica, assim, dependente de sinais externos que são variáveis e que nem sempre conseguimos interpretar correctamente.

Uma pessoa pode deixar de nos procurar porque não procura uma relação, porque perdeu o interesse sexual, porque está envolvida com outra pessoa ou porque simplesmente não quer continuar aquele contacto. Nem todas estas situações têm alguma coisa a ver com o nosso valor ou com a nossa capacidade de despertar desejo.

Mesmo assim, quando já estamos inseguros, podemos transformar a ausência de interesse numa conclusão sobre nós próprios. Em vez de pensarmos que determinada pessoa não quer continuar, começamos a acreditar que ninguém nos vai querer.

É uma diferença importante. Uma experiência concreta passa a ser interpretada como uma verdade geral sobre quem somos.

O mesmo pode acontecer no sentido contrário. Podemos receber muita atenção sexual e começar a acreditar que precisamos de a manter para continuar a sentir-nos bem. A validação deixa de ser algo agradável que acontece e transforma-se numa espécie de obrigação. Temos de continuar a despertar interesse, a corresponder às expectativas e a provar que ainda somos desejáveis.

Nesse momento, o prazer corre o risco de ficar em segundo plano. Já não estamos apenas a viver a nossa sexualidade. Estamos também a tentar proteger uma imagem de nós próprios que depende da reacção dos outros.

 

Sexo, autoestima e necessidade de ser escolhido

A necessidade de validação não surge do nada. Pode estar relacionada com experiências de rejeição, insegurança em relação ao corpo, relações anteriores, comparação social ou períodos em que nos sentimos pouco valorizados.

Não existe uma única explicação, e seria errado presumir que todas as pessoas que procuram atenção sexual têm baixa autoestima. A sexualidade é complexa, e o mesmo comportamento pode ter significados diferentes para pessoas diferentes.

Ainda assim, vale a pena olhar para a relação entre a necessidade de ser desejado e a necessidade de ser escolhido.

Por vezes, não queremos necessariamente a pessoa que demonstra interesse. Queremos a confirmação de que ela nos quer. A atenção recebida pode ser mais importante do que a possibilidade de construir alguma coisa com quem a oferece.

Isto pode tornar-se particularmente evidente quando sentimos mais vontade de conquistar alguém que parece distante ou indisponível. A dificuldade em obter atenção pode aumentar a importância que lhe atribuímos. Quando finalmente a recebemos, sentimos alívio, entusiasmo ou uma sensação de vitória.

Mas será que estamos interessados naquela pessoa ou naquilo que a sua atenção nos faz sentir?

Não existe uma resposta universal. Podemos sentir atracção genuína e, ao mesmo tempo, procurar validação. As duas coisas não são incompatíveis. O importante é perceber se estamos a confundir a satisfação de sermos desejados com a satisfação de estarmos com alguém.

Ser escolhido pode ser agradável. Não deveria, contudo, ser a única forma de nos sentirmos suficientes.

 

Como perceber se procuramos prazer ou aprovação?

Não precisamos de analisar todas as nossas decisões sexuais, nem de transformar cada encontro numa investigação sobre a nossa autoestima. Mas, se sentimos que a atenção sexual ocupa um lugar demasiado importante na forma como nos avaliamos, pode ser útil fazer algumas perguntas.

Quando procuro alguém, tenho vontade de viver uma experiência sexual ou estou sobretudo a tentar sentir-me desejado? Se a pessoa demonstrar interesse, mas eu perceber que não tenho vontade de estar com ela, continuarei a querer esse encontro? Como me sinto quando alguém perde o interesse? Consigo aceitar que não existe atracção mútua ou interpreto a situação como prova de que há alguma coisa errada comigo?

As respostas podem ajudar-nos a reconhecer padrões que passam despercebidos no quotidiano.

Também importa observar o que sentimos depois dos encontros. Ficamos satisfeitos com a experiência ou sentimos uma necessidade imediata de procurar outra pessoa? Conseguimos desfrutar do desejo sem depender da confirmação constante de que continuamos a ser atraentes? Sentimos liberdade para dizer que não queremos um encontro, mesmo quando gostamos da atenção que recebemos?

Não existem respostas certas para toda a gente. O objectivo não é deixar de gostar de ser desejado, mas perceber se essa necessidade está a limitar as nossas escolhas ou a tornar-nos dependentes da aprovação dos outros.

Se descobrirmos que a nossa autoestima oscila constantemente em função da atenção sexual, podemos começar por trabalhar a relação que temos connosco próprios, reconhecer outras fontes de satisfação e procurar apoio psicológico se este padrão nos causar sofrimento persistente.

 

Não precisamos de deixar de querer ser desejados

É perfeitamente humano gostar de sentir que despertamos interesse. O desejo de outra pessoa pode fazer-nos sentir próximos, valorizados e confiantes. Não precisamos de fingir que essa atenção nos é indiferente, nem de considerar superficial quem gosta de receber elogios ou de se sentir atraente.

O problema não está em gostarmos de ser desejados. Está em acreditarmos que precisamos de o ser para termos valor.

A nossa vida sexual pode ser uma fonte de prazer, descoberta e satisfação. Pode também ajudar-nos a conhecer melhor o nosso corpo, os nossos limites e aquilo de que gostamos. Mas não tem de ser responsável por reparar todas as inseguranças que trazemos connosco.

Podemos sentir desejo sem procurar aprovação. Podemos ter sexo sem precisar de provar nada. Podemos também atravessar períodos em que não despertamos o interesse que gostaríamos de despertar, sem que isso nos torne menos interessantes ou menos dignos de afecto.

Talvez a pergunta mais importante não seja quantas pessoas nos desejam, mas o que acontece connosco quando ninguém o demonstra.

Conseguimos continuar a reconhecer o nosso valor? Conseguimos gostar de nós sem precisarmos de uma confirmação constante? E conseguimos escolher com quem queremos estar pelo prazer e pela ligação que essa pessoa nos proporciona, em vez de o fazermos apenas para sentir que ainda somos desejáveis?

Não precisamos de encontrar todas as respostas de imediato. Mas compreender a diferença entre desejar alguém e precisar de ser desejado pode mudar a forma como vivemos a nossa sexualidade.

Porque o prazer pode ser uma escolha, a atracção pode ser uma experiência gratificante e a atenção dos outros pode fazer-nos bem. Nenhuma destas coisas precisa de se transformar numa prova permanente de que somos suficientes.

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Um projecto com mais de 22 anos, onde apresento e abordo assuntos que me interessam a cada momento da vida. Desde humor, a saúde, passando pela tecnologia, a sexualidade e a espiritualidade. Tudo é válido neste espaço. Conto consigo para passar um bom momento a dois.
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