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As alterações climáticas são uma conspiração ou a desinformação é que está a ser usada como arma?

Há quem afirme que as alterações climáticas são uma invenção para controlar a população e há quem considere perigosa qualquer dúvida sobre o tema. Entre interesses económicos, decisões políticas e evidência científica, importa separar os factos das narrativas que procuram influenciar aquilo em que acreditamos.

O clima da Terra sempre mudou. Então, o que há de diferente agora?

Antes de discutir conspirações, vale a pena reconhecer um facto: o clima da Terra nunca foi estático.

Ao longo de milhões de anos, o planeta passou por períodos glaciares, épocas mais quentes, alterações na circulação dos oceanos e mudanças na composição da atmosfera. A actividade solar, as erupções vulcânicas e outros processos naturais influenciaram o clima muito antes de existirem seres humanos.

Por isso, quando alguém diz que «o clima sempre mudou», não está a dizer uma mentira. Está a apresentar um facto.

A questão é outra: o facto de o clima sempre ter mudado significa que a actividade humana não pode estar a provocar o aquecimento actual?

Não.

O Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas (IPCC) concluiu, no seu relatório de síntese de 2023, que as actividades humanas, sobretudo através das emissões de gases com efeito de estufa, causaram inequivocamente o aquecimento global. A temperatura média global à superfície, no período de 2011 a 2020, foi aproximadamente 1,1 °C superior à do período de 1850 a 1900.

Esta conclusão não resulta de uma única medição ou de uma teoria isolada. Baseia-se em múltiplas linhas de evidência, incluindo registos de temperatura, medições dos oceanos, observações de satélite, análises da composição atmosférica e estudos sobre o funcionamento físico do sistema climático.

A NASA explica que as alterações observadas desde meados do século XX são principalmente causadas pela actividade humana, em particular pela queima de combustíveis fósseis e pelo aumento da concentração de gases que retêm calor na atmosfera.

Isto não significa que todos os fenómenos meteorológicos sejam provocados pelas alterações climáticas, nem que os cientistas consigam prever exactamente o que acontecerá em cada local. Significa que existe uma diferença entre reconhecer a variabilidade natural do clima e ignorar as provas que identificam a influência humana no aquecimento actual.

A ciência não precisa de negar o passado do planeta para explicar o presente.

 

 

Porque é que algumas pessoas dizem que o aquecimento global é uma invenção?

Uma das alegações mais comuns é a de que as alterações climáticas foram inventadas por governos, organizações internacionais ou grupos económicos para justificar novos impostos, restringir a liberdade individual e controlar a forma como vivemos.

Esta narrativa mistura questões diferentes.

É verdade que os governos utilizam as alterações climáticas para justificar políticas públicas. Essas políticas podem incluir impostos, limites às emissões, incentivos financeiros, regras para a indústria e mudanças na produção de energia.

Também é legítimo discutir se determinadas medidas são eficazes, se os custos estão a ser distribuídos de forma justa e se algumas decisões prejudicam desproporcionadamente as pessoas com menos recursos.

Mas nada disso demonstra que o fenómeno científico tenha sido inventado.

Para avaliar essa alegação, precisamos de distinguir duas perguntas: o aquecimento global está a acontecer e qual é a sua causa? E quais são as melhores políticas para responder ao problema?

A primeira pergunta é científica. A segunda envolve ciência, economia, ética e decisões políticas.

Podemos aceitar as conclusões científicas sobre o aquecimento global e, simultaneamente, discordar de uma taxa específica sobre os combustíveis, de uma proibição ou de uma medida governamental.

Não precisamos de negar a ciência para criticar a política.

Da mesma forma, não devemos aceitar automaticamente todas as decisões tomadas em nome do ambiente só porque o problema que procuram resolver é real.

É precisamente esta distinção que muitas discussões públicas perdem: transformam um debate sobre as melhores soluções numa guerra entre quem acredita na ciência e quem supostamente pretende destruir a sociedade.

 

 

Quem beneficia economicamente das alterações climáticas?

Se queremos falar de interesses económicos, temos de olhar para os dois lados.

Durante décadas, a produção e o consumo de carvão, petróleo e gás natural sustentaram sectores inteiros da economia mundial. Estas actividades geram receitas, emprego, investimento e receitas fiscais, mas também estão associadas a emissões de gases com efeito de estufa.

Ao mesmo tempo, a transição energética cria oportunidades comerciais para empresas que desenvolvem painéis solares, turbinas eólicas, baterias, veículos eléctricos, sistemas de eficiência energética e outras tecnologias.

Existem, portanto, interesses económicos na manutenção do modelo energético actual e na sua transformação.

Isso não significa que todas as empresas de combustíveis fósseis estejam envolvidas numa conspiração, nem que todas as empresas de energia renovável actuem exclusivamente por razões ambientais. Significa que as decisões sobre o clima têm consequências económicas importantes e que diferentes sectores procuram influenciar as regras que afectam os seus negócios.

É legítimo investigar o financiamento de campanhas políticas, a influência de grupos de pressão, a divulgação selectiva de informação e os conflitos de interesses. O mesmo rigor deve ser aplicado às empresas tradicionais, às novas indústrias e às organizações que defendem determinadas políticas.

A existência de um interesse económico não prova, por si só, que uma afirmação seja falsa. Mas é uma razão válida para perguntar quem está a financiar determinada mensagem, que provas apresenta e quem beneficia se acreditarmos nela.

A ONU, nas suas recomendações sobre a comunicação das alterações climáticas, aconselha precisamente a verificar as fontes, a origem da informação e os possíveis incentivos de quem a divulga.

O problema não é reconhecer que existem interesses. É escolher antecipadamente quais os interesses que queremos investigar e ignorar os restantes.

 

 

O clima está a mudar, mas isso significa que todas as catástrofes são causadas pelo aquecimento global?

Não. E esta distinção é fundamental.

Uma tempestade, uma inundação ou um incêndio florestal pode ter várias causas. As condições meteorológicas, a vegetação, a ocupação do território, a gestão florestal, a construção em zonas de risco e a capacidade das infra-estruturas para resistir a fenómenos extremos podem contribuir para a dimensão dos danos.

As alterações climáticas podem aumentar a probabilidade ou a intensidade de determinados fenómenos, mas a influência não é igual em todos os casos.

Por exemplo, o aumento das temperaturas pode agravar as ondas de calor e aumentar o risco de condições favoráveis a incêndios em certas regiões. Uma atmosfera mais quente também pode reter mais vapor de água, contribuindo para episódios de precipitação intensa em determinadas circunstâncias.

No entanto, não é cientificamente correcto atribuir automaticamente qualquer incêndio, inundação ou tempestade às alterações climáticas sem analisar o fenómeno concreto.

O IPCC explica que a influência humana já afecta muitos fenómenos extremos em diferentes regiões do mundo, mas a força da evidência varia consoante o tipo de fenómeno e a região.

Esta nuance é importante porque tanto o exagero como a negação podem distorcer a realidade.

Se todas as catástrofes forem apresentadas como prova directa das alterações climáticas, a comunicação perde rigor. Se os fenómenos extremos forem sempre tratados como acontecimentos naturais sem qualquer relação com o aquecimento global, também perdemos informação relevante.

A resposta séria exige dados, contexto e uma avaliação científica de cada caso.

 

 

A ciência está sempre certa?

Não. A ciência não é uma entidade infalível, e os cientistas não são pessoas imunes a erros, conflitos de interesses ou limitações.

O conhecimento científico evolui. Novos dados podem alterar estimativas, melhorar modelos e obrigar a rever explicações anteriores. Há debates legítimos sobre a velocidade das mudanças, os efeitos regionais, a sensibilidade do sistema climático e a eficácia de diferentes medidas.

Mas existe uma diferença entre reconhecer incerteza científica e afirmar que não sabemos absolutamente nada.

Os modelos climáticos não são bolas de cristal. Trabalham com cenários, pressupostos e margens de incerteza. Não conseguem antecipar todos os acontecimentos locais, mas permitem estudar tendências e avaliar consequências possíveis de diferentes níveis de emissões.

A incerteza também não significa que todas as explicações tenham o mesmo valor. Quando diferentes métodos de observação e investigação apontam consistentemente para a mesma conclusão, essa convergência constitui uma evidência importante.

A NASA reúne várias linhas de evidência sobre o aquecimento global e as suas causas, incluindo o aumento das concentrações de gases com efeito de estufa e as medições da energia recebida do Sol.

A investigação mostra que as variações solares não explicam o aquecimento observado nas últimas décadas. Isso não significa que o Sol seja irrelevante para o clima, mas que não constitui uma explicação adequada para a tendência actual.

Questionar os modelos, pedir dados e debater os limites das previsões faz parte da ciência. Rejeitar todas as conclusões porque existem incertezas é outra coisa.

 

 

A desinformação climática é uma forma de manipulação?

Pode ser, mas é necessário distinguir os erros honestos da divulgação deliberada de informação enganadora.

Uma pessoa pode partilhar um gráfico sem perceber o que representa. Outra pode interpretar incorrectamente uma notícia. Uma terceira pode acreditar numa explicação porque confia na pessoa que a publicou.

Nem todas estas situações são campanhas organizadas de desinformação.

No entanto, também existem conteúdos que seleccionam dados fora de contexto, apresentam opiniões como se fossem resultados científicos ou repetem alegações já desmentidas para criar dúvidas sobre conclusões bem estabelecidas.

Um exemplo é a utilização de um período curto de temperaturas para afirmar que o aquecimento global parou, ignorando a tendência de longo prazo. Outro é mostrar um episódio de frio num determinado país como prova de que o planeta não está a aquecer. O tempo meteorológico de um dia ou de uma semana não é suficiente para avaliar a evolução do clima global.

A ONU recomenda que se verifiquem as fontes e a base científica das afirmações antes de as partilhar. Esta precaução é especialmente importante quando os conteúdos provocam medo, indignação ou desconfiança imediata.

A desinformação não precisa de convencer toda a gente de uma mentira. Por vezes, basta criar a sensação de que ninguém sabe nada, de que todas as fontes são corruptas e de que nenhuma conclusão merece confiança.

Quando tudo parece suspeito, torna-se mais difícil distinguir uma investigação credível de uma afirmação fabricada.

Mas há um cuidado igualmente importante: não devemos classificar automaticamente como desinformação qualquer crítica a uma política ambiental, qualquer pergunta sobre os custos da transição energética ou qualquer discordância sobre uma medida específica.

A crítica fundamentada é indispensável. O que importa é avaliar a qualidade dos argumentos e das provas, e não apenas o lado do debate em que alguém se posiciona.

 

 

O que está em causa para Portugal?

Portugal não está separado das mudanças que afectam o resto da Europa.

A localização geográfica, a exposição ao calor, a disponibilidade de água, a agricultura, as florestas e as zonas costeiras tornam algumas consequências particularmente relevantes para o país.

A Agência Europeia do Ambiente identifica o Sul da Europa como uma região particularmente exposta a riscos relacionados com o calor, a escassez de água e os impactos na produção agrícola e na saúde.

Isto não significa que cada verão quente seja uma catástrofe climática, nem que todas as dificuldades ambientais tenham uma única causa. Significa que a preparação para riscos futuros exige informação científica, planeamento e políticas adaptadas às condições locais.

Também exige discutir custos e prioridades. Como proteger as pessoas mais vulneráveis durante ondas de calor? Como gerir os recursos hídricos? Como tornar as cidades mais resistentes a temperaturas elevadas? Como reduzir o risco de incêndios e preparar infra-estruturas para fenómenos extremos?

Estas perguntas têm consequências concretas para a vida das pessoas e merecem mais do que uma disputa entre slogans.

Podemos discutir se uma medida é demasiado cara, se foi bem planeada ou se existem alternativas melhores. Mas essas decisões devem partir de uma compreensão tão rigorosa quanto possível dos riscos que enfrentamos.

 

 

Então, as alterações climáticas são uma conspiração?

Com as provas científicas actualmente disponíveis, não há fundamento para afirmar que o aquecimento global causado pela actividade humana seja uma invenção ou uma conspiração global.

O clima sempre mudou, mas isso não invalida a evidência de que as emissões humanas estão a provocar o aquecimento actual. Os governos podem usar o problema para justificar políticas discutíveis, e as empresas podem tentar influenciar as decisões em benefício próprio. Nenhum destes factos demonstra que a ciência das alterações climáticas tenha sido fabricada.

Ao mesmo tempo, reconhecer o aquecimento global não obriga a aceitar todas as previsões, todas as campanhas de comunicação ou todas as medidas políticas sem questionamento.

A investigação científica deve continuar. Os governos devem explicar as suas decisões. As empresas devem ser escrutinadas. Os custos e benefícios das políticas ambientais devem ser discutidos com transparência.

E as pessoas devem poder fazer perguntas sem serem automaticamente tratadas como ignorantes ou conspiracionistas.

A questão não é escolher entre acreditar em tudo o que nos dizem e desconfiar de tudo o que vem das instituições. É aprender a distinguir o que está bem demonstrado, o que permanece incerto e aquilo que alguém afirma sem apresentar provas suficientes.

A desinformação torna-se perigosa quando substitui a investigação por uma conclusão antecipada. Mas também não devemos usar o combate à desinformação como desculpa para evitar perguntas difíceis.

No fundo, a melhor defesa contra a manipulação não é acreditar cegamente numa narrativa, seja ela oficial ou alternativa. É exigir provas, comparar fontes e manter a capacidade de mudar de opinião quando os factos o justificam.

Porque a verdade não se torna menos verdadeira por ser politicamente inconveniente. E uma afirmação não se torna verdadeira apenas porque nos ajuda a desconfiar de quem tem poder.

Fontes e referências

  1. IPCC, Relatório de Síntese de 2023. Síntese das conclusões científicas sobre o aquecimento global, as suas causas e os seus impactos.

  2. IPCC, relatório sobre a base científica das alterações climáticas. Evidência sobre o aquecimento observado, a influência humana e os fenómenos meteorológicos extremos.

  3. NASA, evidências das alterações climáticas. Observações sobre a temperatura, os oceanos, o gelo e a influência humana.

  4. NASA, causas das alterações climáticas. Explicação dos gases com efeito de estufa, das emissões humanas e da influência dos factores naturais.

  5. Agência Europeia do Ambiente, impactos das alterações climáticas na Europa. Informação sobre riscos relacionados com o calor, a água, a agricultura e a saúde.

  6. ONU, comunicação sobre alterações climáticas. Recomendações para verificar fontes, reconhecer a desinformação e comunicar informação científica.

Nota editorial: o artigo distingue as conclusões científicas sobre o aquecimento global das decisões políticas e dos interesses económicos associados à resposta climática. A existência de interesses ou de políticas discutíveis não constitui prova de que as alterações climáticas sejam uma conspiração.

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