Há ideias que parecem demasiado absurdas para serem verdadeiras, até descobrirmos que uma parte delas nasceu de acontecimentos reais. O problema começa quando aquilo que está documentado se mistura com suspeitas e conclusões para as quais ninguém consegue apresentar provas.
O Grande Reset é um desses casos.
Para algumas pessoas, trata-se de um plano concebido por líderes políticos, grandes empresários e organizações internacionais para controlar a população mundial. Para outras, é uma iniciativa económica que acabou por se transformar numa das teorias da conspiração mais conhecidas dos últimos anos.
Mas o que aconteceu realmente?
Uma iniciativa que existiu
Em Junho de 2020, durante a pandemia de COVID-19, o Fórum Económico Mundial anunciou uma iniciativa chamada The Great Reset. A proposta pretendia aproveitar a crise para repensar os modelos económicos e sociais, defendendo uma recuperação mais sustentável e inclusiva.
A iniciativa foi apresentada publicamente por Klaus Schwab, fundador do Fórum, e pelo então príncipe Carlos, actualmente rei Carlos III. Não era um projecto secreto. Existiam declarações públicas, documentos e propostas que qualquer pessoa podia consultar.
É precisamente aqui que a discussão se torna interessante.
O Fórum Económico Mundial reúne dirigentes políticos, responsáveis de grandes empresas, investidores e outras figuras com influência internacional. É legítimo questionar os interesses que representam, a influência que exercem e a transparência das decisões que afectam a sociedade.
A questão é perceber até onde nos levam os factos.
Como nasceu a teoria da conspiração?
Nas redes sociais, a iniciativa começou a ser apresentada como prova de um plano para eliminar a propriedade privada, controlar os cidadãos, impor uma nova ordem mundial e retirar liberdades individuais.
Estas interpretações juntaram-se a narrativas anteriores à pandemia, segundo as quais uma pequena elite internacional estaria a coordenar os acontecimentos mundiais para estabelecer um sistema de controlo global.
A pandemia criou um contexto favorável a estas ideias. Os confinamentos, as restrições, a crise económica e a desconfiança em relação às autoridades levaram muitas pessoas a procurar explicações para acontecimentos que alteraram profundamente as suas vidas.
Quando faltam respostas claras, uma narrativa capaz de explicar tudo pode tornar-se sedutora.
Mas uma história que liga todos os acontecimentos não é necessariamente uma história verdadeira.
O que está provado e o que continua por demonstrar?
Está documentado que o Fórum Económico Mundial apresentou uma iniciativa chamada Grande Reset. Também é legítimo discutir a concentração de poder económico, a influência das grandes empresas e as relações entre interesses privados e decisões públicas.
O que não está demonstrado é que essa iniciativa constitua, por si só, a prova de um plano secreto para controlar toda a população mundial.
Uma proposta pode ser discutível, beneficiar determinados sectores ou ter consequências negativas sem fazer parte de uma conspiração global. Para demonstrar a existência de um plano secreto, seriam necessárias provas concretas da coordenação, dos objectivos e dos meios utilizados.
Não devemos confundir influência com omnipotência.
Devemos confiar cegamente nas instituições?
Não. A confiança não deve ser uma obrigação, sobretudo quando estão em causa organizações com influência económica e política. As propostas devem ser analisadas, os interesses identificados e os responsáveis questionados.
Mas também não devemos substituir a confiança cega pela desconfiança absoluta.
Se partirmos do princípio de que todas as declarações públicas escondem uma intenção secreta, qualquer documento pode transformar-se em prova de uma conspiração. Se aceitarmos tudo sem questionar, deixamos de exercer pensamento crítico.
O caminho mais difícil é também o mais útil: ler os documentos, comparar as declarações com as decisões, identificar quem beneficia e procurar provas que possam contrariar as nossas próprias convicções.
A pergunta não deve ser apenas «quem está por detrás disto?». Deve ser também «que provas existem de que está a acontecer aquilo que me dizem?».
O verdadeiro perigo pode ser outro
Não precisamos de acreditar numa conspiração mundial para reconhecer que existe concentração de poder. E não precisamos de aceitar todas as teorias que circulam na Internet para exigir mais transparência a quem governa.
Talvez a questão mais importante não seja descobrir se existe uma sala secreta onde alguém decide o futuro da humanidade. É perceber até que ponto as decisões que moldam as nossas vidas são transparentes, quem tem acesso aos lugares onde são tomadas e que mecanismos temos para as contestar.
A verdade não se torna menos importante por ser menos espectacular do que a conspiração.
Às vezes, o que realmente merece a nossa atenção não é o plano secreto que alguém diz ter descoberto. São os documentos públicos que quase ninguém se dá ao trabalho de ler.
Fontes e leituras adicionais
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World Economic Forum, The Great Reset: A Unique Twin Summit to Begin 2021 (3 de Junho de 2020). Comunicado original sobre a iniciativa.
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Klaus Schwab, Now is the time for a ‘great reset’ of capitalism (World Economic Forum, 3 de Junho de 2020). Apresentação das ideias económicas associadas ao projecto.
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Robinson e Watson, Conspiracy theory, anti-globalism, and the Freedom Convoy. Investigação académica sobre a utilização das narrativas do Grande Reset.
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Full Fact, The Great Reset: What is it?. Verificação de alegações que circularam nas redes sociais.
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Nações Unidas, Transforming our world: the 2030 Agenda for Sustainable Development. Documento oficial da Agenda 2030.
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