Há uma altura da vida em que começamos a perceber que existem coisas que nunca escolhemos verdadeiramente. Simplesmente aprendemos que era assim que devíamos fazer. Estudar, arranjar um emprego, ganhar dinheiro, encontrar alguém, constituir família, comprar uma casa, ter filhos, trabalhar até à idade da reforma e, finalmente, aproveitar a vida que nos resta. Pelo meio, espera-se que sejamos felizes, que tenhamos objectivos e que consigamos mostrar aos outros que estamos a fazer alguma coisa de útil com a nossa existência.
Parece um plano razoável. O problema começa quando tentamos perceber quem o escreveu e porque é que tantas pessoas sentem que falharam na vida quando não conseguem cumpri-lo.
Quem decidiu que esta era a ordem certa das coisas? E porque é que continuamos a medir a vida dos outros por uma lista de objectivos que nem sequer sabemos se lhes pertence?
A vida que nos ensinaram a querer
Desde pequenos, começamos a receber sinais sobre aquilo que significa ter sucesso. As boas notas são recompensadas, os cursos são escolhidos com base nas oportunidades profissionais, os empregos são avaliados pelo salário e as relações são frequentemente vistas como etapas que devem conduzir a alguma coisa. A determinada altura, ter uma relação estável deixa de ser apenas uma possibilidade e transforma-se numa expectativa. Depois vem a pergunta sobre o casamento, a casa, os filhos e tudo aquilo que supostamente deveria acontecer a seguir.
Não é necessário que alguém nos obrigue directamente. A expectativa está presente nas conversas familiares, nas perguntas dos amigos, nas fotografias que vemos nas redes sociais e até na forma como falamos sobre pessoas que fizeram escolhas diferentes.
Quando alguém compra uma casa, é habitual ouvir que está a construir o futuro. Quando alguém muda de emprego para ganhar mais dinheiro, dizemos que está a evoluir. Quando alguém se casa, é felicitado por dar um passo importante. Mas o que dizemos a quem decide não ter filhos, a quem não quer casar, a quem prefere viver sozinho ou a quem abandona uma carreira bem remunerada porque deixou de encontrar sentido naquilo que faz?
Muitas vezes, tentamos perceber o que correu mal.
Esta reacção revela alguma coisa sobre a forma como aprendemos a olhar para a vida. Conseguimos aceitar facilmente escolhas que reconhecemos como legítimas porque correspondem ao modelo que conhecemos. Quando alguém se afasta desse modelo, sentimos necessidade de encontrar uma explicação. Como se uma vida diferente precisasse de justificar a sua existência perante as restantes.
É curioso que se fale tanto de liberdade individual e, ao mesmo tempo, se espere que as pessoas façam escolhas bastante semelhantes.
O problema não está em querer essas coisas
Seria injusto concluir que estudar, trabalhar, casar, comprar uma casa ou ter filhos são objectivos errados. Para muitas pessoas, representam desejos genuínos e fontes importantes de felicidade. Ter estabilidade financeira pode significar segurança. Construir uma família pode ser um dos projectos mais importantes de uma vida. Ter uma casa própria pode representar independência depois de anos de dificuldades.
O problema não está nos objectivos. Está na ideia de que são obrigatórios para todos e de que a ausência de um deles representa uma falha.
Há pessoas que não querem ter filhos e que sabem isso desde muito cedo. Há quem queira viver uma relação sem casamento. Há quem não encontre realização numa carreira profissional e prefira uma vida mais simples. Há quem passe anos a tentar alcançar a estabilidade que lhe ensinaram a desejar e descubra, quando finalmente a consegue, que não era aquilo que precisava.
Também há pessoas que gostariam de cumprir esses objectivos, mas não tiveram as mesmas oportunidades. Não conseguiram comprar uma casa porque os preços se tornaram incomportáveis, não encontraram um emprego estável ou viram os seus planos interrompidos por circunstâncias que não controlavam. A sociedade tem uma facilidade desconcertante em transformar estas dificuldades em questões de mérito pessoal, como se todos começássemos do mesmo lugar e tivéssemos exactamente as mesmas possibilidades.
Assim, aquilo que começou por ser um modelo de vida transforma-se numa medida de valor humano. Quem consegue cumprir as etapas é visto como alguém que está no caminho certo. Quem não consegue, ou não quer, acaba frequentemente a sentir que ficou para trás.
Mas para trás de quem?
A vida não é uma corrida com uma meta universal. A ideia de que existe um percurso correcto pode ser tão forte que uma pessoa passa anos a tentar alcançá-lo sem se perguntar se alguma vez o escolheu.
Quando o sucesso dos outros se transforma numa acusação
As redes sociais tornaram esta comparação ainda mais difícil de evitar. Estamos constantemente expostos a pessoas que parecem estar a avançar. Alguém comprou uma casa, outra pessoa foi promovida, um casal anunciou um casamento, um amigo teve um filho, alguém abriu uma empresa ou mudou-se para outro país.
Cada publicação representa um momento seleccionado de uma vida, mas o nosso cérebro não recebe necessariamente essa informação como uma história incompleta. Compara o que vê com aquilo que tem. E, se a nossa vida não corresponder à mesma imagem, é fácil começar a sentir que estamos atrasados.
O curioso é que nem sequer precisamos de desejar aquilo que vemos para sentir essa pressão. Podemos não querer filhos e, ainda assim, sentir que há alguma coisa errada por não os termos. Podemos preferir viver numa casa pequena e sentir vergonha por não conseguirmos comprar uma maior. Podemos não ter ambições profissionais muito elevadas e sentir que estamos a desperdiçar capacidades porque os outros parecem querer sempre mais.
A comparação deixa de servir para percebermos o que desejamos e passa a funcionar como uma avaliação constante daquilo que somos.
E quanto mais tentamos acompanhar o ritmo dos outros, mais difícil se torna reconhecer o nosso próprio.
Há ainda uma contradição que raramente discutimos. Muitas das pessoas que admiramos por terem alcançado aquilo que a sociedade considera sucesso podem estar a viver sob uma pressão enorme para manter essa mesma imagem. Uma casa pode trazer segurança, mas também uma dívida que condiciona todas as decisões. Um emprego prestigiado pode trazer reconhecimento, mas consumir quase todo o tempo disponível. Uma família pode ser uma fonte de amor e, simultaneamente, exigir esforços que ninguém consegue compreender de fora.
Não sabemos tudo o que existe por detrás das escolhas dos outros. Vemos o resultado e imaginamos a felicidade que lhe associamos.
E se uma vida normal não tiver de parecer-se com a de ninguém?
Talvez uma das coisas mais difíceis seja aceitar que podemos querer uma vida que não impressione ninguém. Uma vida sem grandes conquistas para anunciar, sem uma sucessão de objectivos reconhecidos socialmente e sem a necessidade de provar constantemente que estamos a evoluir.
Isso não significa desistir, deixar de ter responsabilidades ou viver sem pensar no futuro. Significa reconhecer que o valor de uma vida não pode depender apenas daquilo que conseguimos acumular, exibir ou transformar em resultados.
Podemos querer estabilidade sem querer riqueza. Podemos gostar do nosso trabalho sem desejar subir na hierarquia. Podemos preferir a companhia de poucas pessoas a uma vida social intensa. Podemos não querer constituir família no sentido tradicional e continuar a construir relações profundas. Podemos mudar de ideias, recomeçar ou descobrir, aos quarenta anos, que aquilo que nos fazia felizes aos vinte já não faz sentido.
Também podemos passar por períodos em que não sabemos exactamente o que queremos. Nem todas as fases da vida precisam de produzir uma decisão definitiva. Às vezes, precisamos apenas de tempo para perceber o que sentimos, sem transformar essa incerteza num problema que temos de resolver imediatamente.
A questão não é substituir o modelo tradicional por outro modelo que nos diga como devemos viver. Seria apenas trocar uma obrigação por outra. A questão é recuperar a possibilidade de escolher, sabendo que as nossas escolhas têm consequências, mas não precisam de ser aprovadas por toda a gente.
Afinal, quando dizemos que alguém tem uma vida normal, estamos a descrever a sua realidade ou apenas a reconhecer nela aquilo que nos ensinaram a esperar?
Talvez o verdadeiro problema não seja haver pessoas que vivem de maneira diferente. Talvez seja termos aprendido a olhar para a diferença como se fosse uma explicação em falta.
Não existe uma única forma de construir uma vida que valha a pena. Existe aquilo que cada pessoa procura, aquilo que consegue alcançar, as circunstâncias que encontra e a forma como decide viver com tudo isso. O percurso de alguém pode não fazer sentido para nós e continuar a ser exactamente o percurso de que essa pessoa precisa.
E talvez a liberdade comece quando deixamos de perguntar se estamos a viver como deveríamos e começamos a perguntar se estamos, de facto, a viver de uma forma que faz sentido para nós.
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