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A inteligência artificial está a ser usada para manipular aquilo em que acreditamos?

E se aquilo que vemos e ouvimos não tiver acontecido? Dos deepfakes à clonagem de voz, investigamos como a inteligência artificial está a transformar a desinformação, quem pode beneficiar desta tecnologia e o que podemos fazer para reconhecer conteúdos manipulados.

E se um dia recebesses um vídeo de alguém a confessar um crime, a revelar um segredo ou a dizer algo que poderia mudar completamente a tua opinião sobre essa pessoa? E se o vídeo parecesse autêntico, a voz fosse familiar e os movimentos fossem naturais, mas nada daquilo tivesse acontecido?

Durante muito tempo, habituámo-nos a acreditar que uma fotografia era uma prova, que uma gravação permitia confirmar uma conversa e que um vídeo mostrava alguma coisa que realmente tinha acontecido. Hoje, essa confiança está a ser posta à prova.

A inteligência artificial consegue criar imagens realistas, imitar vozes e produzir vídeos de pessoas a dizer palavras que nunca pronunciaram. Algumas destas ferramentas têm utilizações legítimas na arte, no cinema e na educação. Outras podem ser usadas para enganar, extorquir, difamar ou influenciar a opinião pública.

A tecnologia existe. Os riscos também. Mas será que estamos perante uma nova forma de manipulação em massa? E até que ponto aquilo que vemos nas redes sociais corresponde à realidade?

 

 

Os deepfakes já não pertencem à ficção científica

Os deepfakes são conteúdos de imagem, áudio ou vídeo criados ou manipulados com recurso a inteligência artificial, de forma a representar pessoas, acontecimentos ou declarações que podem nunca ter existido daquela maneira.

Uma pessoa pode aparecer num vídeo a dizer algo que nunca disse. A voz de um familiar pode ser imitada. Uma fotografia pode mostrar um acontecimento inexistente com um nível de detalhe que, há alguns anos, seria muito mais difícil de produzir.

O problema não está apenas na qualidade destas falsificações. Está também na facilidade com que podem ser partilhadas e retiradas do contexto original.

Um vídeo falso pode circular milhares de vezes antes de alguém verificar a sua autenticidade. Mesmo depois de ser desmentido, pode continuar a ser partilhado, guardado ou utilizado como suposta prova.

A dificuldade aumenta quando o conteúdo confirma aquilo em que já acreditávamos.

O Reuters Institute for the Study of Journalism, no seu Digital News Report 2025, concluiu que 58% dos inquiridos nos mercados abrangidos pelo estudo estavam preocupados com a dificuldade de distinguir o que é verdadeiro do que é falso nas notícias encontradas na Internet. O relatório baseou-se em quase 100 mil entrevistas a consumidores de notícias em 48 mercados.

Este resultado não demonstra que a maioria das notícias seja falsa, nem que todas as pessoas estejam a ser manipuladas. Mostra, porém, que a confiança na informação digital enfrenta um problema significativo.

 

 

Quem está a utilizar a inteligência artificial para enganar?

Não existe um único grupo responsável por todas as utilizações maliciosas desta tecnologia.

Há burlões que podem recorrer à clonagem de voz para se fazerem passar por familiares, colegas ou responsáveis de empresas. Existem conteúdos falsos utilizados para humilhar pessoas, criar escândalos ou prejudicar reputações. Também é possível produzir imagens e vídeos enganosos com objectivos políticos ou comerciais.

Imagina receberes uma chamada de alguém cuja voz reconheces perfeitamente. A pessoa diz que está em apuros e pede dinheiro com urgência. A voz parece verdadeira, a história é convincente e a situação não te dá tempo para pensar.

A familiaridade pode ser suficiente para baixar as defesas.

É por isso que a clonagem de voz representa um risco real para a segurança digital. A voz, que durante muito tempo funcionou como um sinal de identidade, deixou de ser uma garantia suficiente de que estamos a falar com determinada pessoa.

Perante um pedido inesperado de dinheiro, dados bancários ou códigos de autenticação, o mais seguro é interromper o contacto e confirmar a situação através de outro meio, utilizando um número que já conheças.

Não precisamos de imaginar uma organização secreta a controlar todas as chamadas telefónicas para reconhecer o perigo. Basta perceber que uma ferramenta acessível pode ser utilizada por alguém com más intenções.

 

 

A inteligência artificial pode influenciar eleições e decisões políticas?

A manipulação política através de conteúdos falsos não começou com a inteligência artificial. A propaganda, os boatos e as fotografias fora de contexto existem há muito tempo.

O que mudou foi a capacidade de produzir conteúdos convincentes em pouco tempo e de os adaptar a públicos diferentes.

Um vídeo falso de um candidato, uma declaração inventada ou uma gravação manipulada podem surgir num momento politicamente sensível e circular antes de os jornalistas ou as autoridades conseguirem verificar a informação.

O risco não se limita a convencer as pessoas de uma mentira específica. Um conteúdo falso pode também semear dúvidas sobre acontecimentos verdadeiros, alimentar conflitos ou diminuir a confiança nas instituições.

A Comissão Europeia reconhece a manipulação da informação e a interferência estrangeira como desafios para o espaço público. No seu portal dedicado ao combate à manipulação da informação, descreve medidas que incluem a responsabilização das plataformas digitais, a protecção do debate democrático e o combate à desinformação.

Isto não significa que todos os conteúdos políticos gerados por inteligência artificial sejam propaganda, nem que todas as campanhas de desinformação sejam dirigidas por governos. É necessário analisar cada caso, identificar os responsáveis quando possível e verificar as provas disponíveis.

Uma acusação grave não se torna verdadeira apenas porque parece plausível.

 

 

Quem controla aquilo que aparece no nosso ecrã?

A inteligência artificial é apenas uma parte do problema. As plataformas digitais também desempenham um papel importante na forma como a informação chega até nós.

As publicações que vemos podem depender das nossas interacções anteriores, dos sistemas de recomendação, dos anúncios e das decisões de moderação. O conteúdo que desperta indignação ou curiosidade pode receber mais atenção e circular mais depressa do que uma explicação cuidadosa.

A Comissão Europeia explica, na sua informação sobre o Regulamento dos Serviços Digitais, que as grandes plataformas têm obrigações relacionadas com a transparência da publicidade, os sistemas de recomendação e os riscos associados aos seus serviços.

O regulamento prevê também opções de recomendações não personalizadas nas grandes plataformas abrangidas pelas regras aplicáveis. Estas medidas procuram dar aos utilizadores mais informação e controlo sobre a sua experiência digital.

Mas existe uma diferença importante entre reconhecer que os algoritmos influenciam o que vemos e afirmar que alguém decide secretamente tudo aquilo em que devemos acreditar.

Uma plataforma pode favorecer conteúdos porque estes geram mais interacções, porque correspondem aos interesses comerciais do serviço ou porque os utilizadores demonstraram interesse em assuntos semelhantes. Isso pode ter consequências sérias sem que exista um plano centralizado para controlar todas as opiniões.

O verdadeiro desafio é perceber como funcionam estes sistemas, que incentivos os orientam e que mecanismos existem para os fiscalizar.

 

 

Se tudo pode ser falso, como sabemos em que acreditar?

Este é talvez o aspecto mais inquietante do problema.

Quando descobrimos que uma fotografia foi manipulada ou que um vídeo foi fabricado, podemos começar a desconfiar de outros conteúdos. Essa cautela é compreensível. Mas existe o risco de passarmos de uma confiança excessiva para uma desconfiança absoluta.

Se tudo pode ser falso, então qualquer prova pode ser rejeitada com a simples alegação de que foi criada por inteligência artificial.

Essa atitude também favorece a manipulação. Uma pessoa apanhada numa mentira pode tentar desacreditar uma gravação verdadeira, afirmando que se trata de um deepfake. A existência de falsificações torna-se, assim, uma forma de lançar dúvidas sobre provas autênticas.

Não basta perguntar se um vídeo parece verdadeiro. É necessário investigar a sua origem, procurar a versão original e verificar se existem outras fontes independentes que confirmem o acontecimento.

Também é importante distinguir uma falsificação demonstrada de uma suspeita. Não encontrar imediatamente a origem de um vídeo não significa que seja falso, tal como a sua aparência realista não prova que seja verdadeiro.

A dúvida deve levar-nos a investigar, não a escolher automaticamente a explicação de que mais gostamos.

 

 

A Europa está a tentar responder ao problema

A utilização da inteligência artificial para criar conteúdos enganosos já é objecto de medidas legislativas.

O Regulamento Europeu da Inteligência Artificial, Regulamento (UE) 2024/1689, estabelece obrigações de transparência para determinados conteúdos gerados ou manipulados artificialmente. O artigo 50 aborda, entre outras matérias, a identificação de conteúdos sintéticos e a divulgação da natureza artificial de determinados deepfakes.

O texto legal pode ser consultado directamente no EUR-Lex, o portal oficial da legislação da União Europeia.

Estas regras procuram facilitar a identificação de conteúdos artificiais, embora não eliminem todos os riscos. A sua eficácia depende da aplicação da legislação, das ferramentas técnicas disponíveis e da capacidade de identificar e responsabilizar quem utiliza estes sistemas de forma abusiva.

Além disso, nem toda a utilização de inteligência artificial é enganadora. Uma imagem criada para ilustrar um artigo, uma cena ficcional ou uma voz sintética claramente identificada podem ser utilizações legítimas. O contexto e a forma como o conteúdo é apresentado fazem diferença.

A questão não é proibir a tecnologia por ser poderosa. É impedir que o seu poder seja utilizado para enganar sem consequências.

 

 

Como podemos proteger-nos?

Não existe um método infalível para reconhecer todos os conteúdos gerados por inteligência artificial apenas através da observação. Alguns sinais visuais podem levantar suspeitas, mas as ferramentas evoluem e as falsificações tornam-se cada vez mais sofisticadas.

Há, contudo, algumas medidas simples que ajudam a reduzir o risco de sermos enganados.

Antes de partilhares uma imagem ou um vídeo polémico, procura a publicação original. Confirma a data, o local e o contexto. Vê se meios de comunicação independentes ou fontes oficiais confirmam o acontecimento. Quando receberes um pedido urgente de dinheiro através de uma chamada ou mensagem, confirma a identidade da pessoa por outro canal.

Desconfia de conteúdos que exigem uma reacção imediata ou que te dizem que tens de os partilhar antes que sejam apagados. A urgência emocional é frequentemente utilizada para impedir que as pessoas parem para verificar.

Também não confies cegamente numa ferramenta que promete detectar todas as falsificações. Os detectores automáticos podem cometer erros, e um resultado negativo não garante que um conteúdo seja autêntico.

Acima de tudo, mantém a mesma exigência de prova quando uma informação confirma as tuas convicções e quando as contraria.

 

 

A maior manipulação pode ser fazer-nos deixar de acreditar na verdade

A inteligência artificial oferece possibilidades extraordinárias, mas também permite criar falsificações capazes de afectar a reputação, a segurança e a confiança pública.

Não há necessidade de acreditar numa conspiração mundial para reconhecer estes riscos. Existem ferramentas reais, utilizações abusivas documentadas e interesses económicos ou políticos que podem beneficiar da circulação de conteúdos enganosos.

O perigo não está apenas em convencer-nos de uma mentira. Está também em tornar cada vez mais difícil distinguir uma mentira de uma verdade e em fazer-nos acreditar que já não vale a pena procurar respostas.

Quando deixamos de verificar, qualquer pessoa pode preencher o espaço vazio com a explicação que mais lhe convém.

Talvez a pergunta mais importante não seja se a inteligência artificial está a ser utilizada para manipular aquilo em que acreditamos. Sabemos que pode ser utilizada dessa forma.

A pergunta é outra: numa realidade em que já não podemos confiar apenas naquilo que vemos e ouvimos, estaremos dispostos a dedicar tempo a descobrir o que realmente aconteceu?

Porque o pensamento crítico não consiste em desconfiar de tudo. Consiste em não aceitar nada como verdadeiro sem razões suficientes para o fazer.

 

 

Fontes e leituras adicionais

  1. Reuters Institute for the Study of Journalism. Digital News Report 2025: visão geral e principais conclusões. Dados internacionais sobre a preocupação com notícias falsas, confiança e consumo de informação.

  2. União Europeia. Regulamento (UE) 2024/1689, Regulamento da Inteligência Artificial. Texto legal, incluindo o artigo 50 sobre obrigações de transparência.

  3. Comissão Europeia. Regulamento dos Serviços Digitais: manter-nos seguros em linha. Informação sobre transparência publicitária, sistemas de recomendação e direitos dos utilizadores.

  4. Comissão Europeia. Combater a manipulação da informação. Medidas europeias relacionadas com desinformação e interferência na esfera pública.

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