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A sociedade precisa que estejamos sempre insatisfeitos connosco?

Estamos sempre a tentar melhorar a aparência, a casa, o trabalho e a vida. Mas será que estes desejos nascem de necessidades reais ou estamos a aprender a sentir que nunca somos suficientes?

Há uma coisa curiosa na forma como consumimos. Podemos passar meses sem pensar que precisamos de um telemóvel novo, até ao dia em que vemos um modelo mais recente. De repente, o nosso parece mais lento, a câmara já não é tão boa e começamos a reparar em tudo aquilo que antes não nos incomodava. Talvez ainda funcione perfeitamente. Talvez nem sequer precisássemos de o substituir. Mas agora sabemos que existe outro melhor.

O mesmo acontece com a roupa, a aparência física, a casa, o carro, a alimentação e até com a forma como organizamos a nossa vida. Aquilo que ontem era suficiente começa a parecer pouco quando somos confrontados com uma versão que nos dizem ser melhor.

Não é por acaso que existem indústrias inteiras dedicadas a vender soluções para problemas que, muitas vezes, só começámos a identificar depois de nos serem apresentados.

Uma pele que precisa de ser corrigida. Um corpo que precisa de ser transformado. Uma casa que precisa de ser renovada. Uma vida que precisa de ser optimizada. Uma versão de nós próprios que, aparentemente, ainda não está à altura daquilo que poderia ser.

E fica uma pergunta desconfortável: será que estamos sempre a tentar melhorar a nossa vida ou estamos a aprender a sentir que aquilo que temos nunca é suficiente?

 

 

Primeiro fazem-nos desejar, depois vendem-nos a solução

A publicidade não se limita a apresentar produtos e a explicar para que servem. Uma parte importante do seu trabalho consiste em associar esses produtos a desejos, emoções e imagens de vida.

Um automóvel pode ser apresentado como um símbolo de liberdade. Um perfume pode ser associado à atracção. Uma peça de roupa pode representar confiança. Um produto de beleza pode prometer uma aparência que se aproxima de determinado ideal.

O objecto continua a ter características concretas, mas aquilo que nos é vendido vai muito além da sua utilidade.

Não compramos apenas uma coisa. Compramos também a possibilidade de nos aproximarmos da pessoa que imaginamos ser quando a tivermos.

Esta estratégia não é necessariamente desonesta. A publicidade pode informar sobre produtos úteis, apresentar alternativas e ajudar as pessoas a descobrir coisas de que realmente precisam. O problema surge quando a venda depende de nos convencer de que existe alguma coisa errada connosco e de que o produto anunciado é a resposta.

Se nos sentimos inseguros com a aparência, aparece uma solução para corrigir aquilo que não gostamos. Se temos medo de envelhecer, aparecem produtos que prometem combater os sinais do tempo. Se receamos ficar para trás, surgem serviços e equipamentos que nos prometem mais produtividade. Se não estamos satisfeitos com a nossa casa, somos confrontados com imagens de interiores que fazem o nosso espaço parecer desactualizado.

A mensagem nem sempre é explícita. Ninguém precisa de nos dizer directamente que somos insuficientes. Basta mostrar repetidamente uma versão idealizada daquilo que poderíamos ser e deixar que façamos a comparação.

Depois, a solução está à venda.

 

 

O negócio de nos compararmos com os outros

Durante muito tempo, as comparações aconteciam sobretudo com as pessoas que conhecíamos, com as figuras públicas que acompanhávamos ou com aquilo que víamos na publicidade e nos meios de comunicação. Hoje, as redes sociais colocam-nos diante de uma quantidade praticamente inesgotável de vidas alheias.

Vemos pessoas com casas bonitas, corpos que correspondem aos padrões de beleza dominantes, carreiras bem-sucedidas, viagens frequentes e relações aparentemente felizes. Sabemos, pelo menos em teoria, que aquilo que aparece nas redes sociais é uma selecção de momentos. Ainda assim, nem sempre conseguimos impedir que essas imagens influenciem a forma como avaliamos a nossa própria vida.

A comparação torna-se especialmente injusta porque não estamos a comparar realidades equivalentes.

De um lado está a nossa vida completa, com as contas para pagar, os dias difíceis, as inseguranças, os conflitos e as coisas que não correram como esperávamos. Do outro está uma imagem escolhida, editada ou cuidadosamente apresentada para mostrar uma determinada versão da realidade.

Mesmo assim, podemos olhar para essa imagem e sentir que estamos a falhar.

O problema não é admirar outras pessoas nem inspirarmo-nos naquilo que conseguiram fazer. Podemos descobrir ideias, aprender com experiências alheias e sentir vontade de mudar alguma coisa na nossa vida. A questão é perceber quando a inspiração se transforma numa avaliação constante do nosso valor.

Há uma diferença entre pensar «gostava de experimentar aquilo» e pensar «a minha vida vale menos porque não tenho aquilo».

A primeira reacção abre possibilidades. A segunda transforma a existência numa competição que nunca conseguimos ganhar, porque haverá sempre alguém com mais dinheiro, mais reconhecimento, uma casa maior ou uma aparência mais próxima do ideal do momento.

E, mesmo que consigamos alcançar aquilo que invejávamos ontem, amanhã podemos encontrar alguém que tem outra coisa que nos falta.

Não existe um ponto definitivo em que todas as comparações terminam e finalmente nos sentimos suficientes.

 

 

A indústria da insegurança não precisa que sejamos infelizes o tempo todo

Seria exagerado afirmar que todas as empresas querem que odiemos a nossa aparência ou que todas as marcas constroem deliberadamente as nossas inseguranças. A realidade é mais complexa. Existem produtos que respondem a necessidades reais, empresas que comunicam de forma responsável e pessoas que consomem sem sentirem qualquer pressão particular.

Mas existe um incentivo comercial evidente quando uma empresa consegue associar um produto a uma insatisfação que o consumidor sente ou que pode vir a sentir.

A indústria da beleza é um exemplo fácil de reconhecer. As tendências mudam, os padrões de aparência evoluem e os produtos são apresentados como respostas a necessidades muito diferentes. Algumas pessoas procuram cuidados que lhes fazem bem, enquanto outras acabam presas à sensação de que existe sempre mais alguma coisa para corrigir.

A mesma lógica pode aparecer no universo do desenvolvimento pessoal, da produtividade e do estilo de vida. Há livros, cursos e ferramentas que oferecem conhecimentos úteis. Mas também existem mensagens que nos deixam com a impressão de que estamos constantemente atrasados, a desperdiçar o nosso potencial ou a ficar para trás em relação a pessoas que parecem ter descoberto uma fórmula para fazer tudo melhor.

Até o descanso pode ser transformado num objectivo de desempenho. Já não basta dormir ou ter tempo livre. Temos de optimizar o sono, medir a actividade, melhorar os hábitos e acompanhar os resultados.

Nada disto é necessariamente negativo por si só. O problema começa quando a melhoria deixa de servir a vida e a vida passa a servir a melhoria.

Se cada aspecto da nossa existência se transforma num projecto que precisa de ser aperfeiçoado, quando é que nos permitimos simplesmente existir?

 

 

Quando melhorar se transforma numa obrigação

Querer melhorar não é um problema. Aprender, cuidar da saúde, desenvolver capacidades e procurar condições de vida mais dignas são objectivos perfeitamente legítimos.

Também não devemos romantizar a insatisfação com situações que realmente precisam de mudar. Uma pessoa que vive numa relação abusiva não tem de aprender a aceitar a situação. Alguém que enfrenta dificuldades financeiras pode precisar de procurar novas oportunidades. Uma pessoa que não se sente bem consigo própria pode beneficiar de apoio e de mudanças importantes.

A questão não é defender que devemos ficar sempre como estamos. É perceber de onde vem a vontade de mudar e o que esperamos conseguir com ela.

Quero mudar porque identifiquei alguma coisa que me faz mal ou porque aprendi a olhar para mim como um problema? Quero comprar determinado produto porque me é útil ou porque fui levado a acreditar que o que tenho me torna menos interessante? Quero alcançar um objectivo porque ele tem significado para mim ou porque preciso de demonstrar aos outros que também sou capaz?

Nem sempre conseguimos separar estas motivações com facilidade. Os nossos desejos são influenciados pela cultura, pela família, pelas experiências e pelas pessoas que admiramos. Não existe uma versão de nós completamente isolada do mundo.

Ainda assim, podemos tentar reconhecer quando a nossa insatisfação deixou de ser uma resposta a uma necessidade concreta e passou a ser uma condição permanente.

Se alcançamos um objectivo e, em vez de sentirmos satisfação, começamos imediatamente a procurar o próximo defeito, talvez valha a pena parar. Se compramos alguma coisa para nos sentirmos melhor e, pouco depois, voltamos a sentir que nos falta outra coisa, talvez o problema não esteja no produto que ainda não comprámos.

E se passamos a vida a tentar aproximar-nos de uma imagem de perfeição que muda constantemente, talvez nunca consigamos chegar ao destino.

 

 

Quem beneficia quando nunca estamos satisfeitos?

A resposta não é uma organização secreta que controla os nossos desejos. São vários interesses, estratégias comerciais e mecanismos sociais que, em conjunto, podem favorecer a insatisfação permanente.

As empresas precisam de vender produtos e serviços. As plataformas digitais procuram captar a nossa atenção. A publicidade tenta associar marcas a necessidades e desejos. Os influenciadores apresentam estilos de vida que podem inspirar, mas também criar novas expectativas. E nós participamos neste sistema sempre que compramos, comparamos, publicamos ou procuramos aprovação.

Não somos apenas vítimas passivas. Temos capacidade para escolher, questionar e mudar hábitos. Mas também não devemos ignorar que fazemos essas escolhas num ambiente onde a nossa atenção tem valor económico e onde existem profissionais dedicados a perceber o que nos leva a comprar.

É por isso que a pergunta não deve ser apenas se temos liberdade para consumir. Devemos perguntar também como se formam os desejos que orientam o nosso consumo.

Quando vemos uma campanha publicitária, conseguimos distinguir a utilidade do produto da imagem de sucesso que lhe está associada? Quando percorremos as redes sociais, conseguimos apreciar aquilo que vemos sem transformar a nossa vida numa versão inferior da vida dos outros? Quando sentimos vontade de mudar a nossa aparência, conseguimos perceber se estamos a responder a uma necessidade pessoal ou a um padrão que nos foi apresentado repetidamente?

Não precisamos de desconfiar de tudo para reconhecer que a forma como nos sentimos connosco próprios pode ter consequências económicas.

Uma pessoa que se sente permanentemente insuficiente pode estar mais disponível para comprar soluções, procurar aprovação e tentar acompanhar tendências. Isso não significa que todas as pessoas inseguras consumam mais, nem que todo o consumo resulte de insegurança. Significa que a insatisfação pode ser explorada comercialmente e que vale a pena reconhecer quando isso acontece.

 

 

E se aquilo que temos já for suficiente?

Esta é talvez a pergunta mais difícil, porque a suficiência não significa a mesma coisa para toda a gente.

Para quem não consegue pagar a renda, ter uma casa segura não é um luxo dispensável. Para quem vive com uma doença, melhorar a saúde pode ser uma necessidade urgente. Para quem está preso a condições de trabalho injustas, procurar uma vida profissional diferente pode ser fundamental.

Não podemos confundir a crítica ao consumismo com a ideia de que devemos aceitar a falta de condições ou deixar de desejar uma vida melhor.

Há, no entanto, uma diferença entre querer melhorar as nossas condições e acreditar que só teremos valor quando atingirmos determinado padrão.

Podemos querer ganhar mais dinheiro sem medir o nosso valor pelo salário. Podemos cuidar da aparência sem precisar de corresponder a todos os padrões de beleza. Podemos comprar coisas de que gostamos sem transformar as compras numa forma de compensar tudo aquilo que nos falta. Podemos admirar outras vidas sem concluir que a nossa é menos digna.

E podemos reconhecer que algumas coisas não precisam de ser melhoradas.

Uma casa não tem de parecer saída de uma revista para ser um lugar onde nos sentimos bem. Um corpo não precisa de corresponder a um ideal estético para merecer respeito. Uma carreira não tem de impressionar os outros para ter significado. Uma vida não precisa de parecer extraordinária para ser importante.

Talvez a verdadeira questão não seja saber se devemos deixar de querer mais. É perceber se ainda conseguimos apreciar aquilo que temos enquanto procuramos aquilo que desejamos.

Porque, se aprendermos a olhar para tudo o que existe na nossa vida como algo que está sempre aquém de uma versão ideal, nunca teremos razões suficientes para sentir satisfação. Haverá sempre um produto novo, uma pessoa com mais sucesso, um objectivo por alcançar ou uma característica que nos disseram que devíamos corrigir.

E alguém estará sempre disposto a vender-nos uma solução.

Provavelmente uma das formas mais importantes de liberdade seja conseguir desejar alguma coisa sem acreditar que precisamos dela para sermos suficientes.

❤️

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Um projecto com mais de 22 anos, onde apresento e abordo assuntos que me interessam a cada momento da vida. Desde humor, a saúde, passando pela tecnologia, a sexualidade e a espiritualidade. Tudo é válido neste espaço. Conto consigo para passar um bom momento a dois.
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